The Pitt é muito mais do que "mais uma série médica"e eu posso provar.
Críticas GeraisSe você, assim como o meu eu do começo do ano, acredita que o mundo já não precisa de mais uma série médica, deixe-me lhe apresentar The Pitt. Eu pensava exatamente a mesma coisa: que já havia visto todos os tipos possíveis de enredos envolvendo emergências, cirurgias mirabolantes e médicos brilhantes, porém emocionalmente disfuncionais. Quando a série estreou em janeiro deste ano na HBO, honestamente, não dei muita atenção. Aliás, confesso que cheguei até a julgar que Noah Wyle, eterno Dr. Carter do clássico Plantão Médico, estivesse apenas repetindo um papel semelhante.

Pois bem, tudo começou a mudar quando, numa conversa com a Inês, ela comentou que já tinha visto os três primeiros episódios (vale lembrar que as séries da HBO seguem o formato de lançamento de episódios semanais) e que The Pitt já havia se tornado uma de suas melhores descobertas do ano, tanto que suas noites de quinta-feira estavam reservadas para acompanhar o restante da temporada.
Na mesma semana, outra amiga comentou que estava adorando a série. E eu, que simplesmente não suporto ficar de fora de conversas (meu FOMO é audiovisual) decidi dar uma chance e foi aí que minhas quintas-feiras à noite também ganharam um novo ritual.
Logo no primeiro episódio, fiquei feliz de ver que The Pitt se passa em “tempo real”, no estilo da icônica 24 Horas. Cada capítulo representa exatamente uma hora do plantão de 12 horas no pronto-socorro. A temporada, porém, tem 15 episódios, o que me deixou intrigada desde o início. O que aconteceria com as três horas “extras”? Seria um epílogo? Um flashback? Uma reviravolta? Sem spoilers, mas posso adiantar uma coisa: é extremamente bem resolvido e faz total sentido dentro da lógica narrativa da série.
A história começa no primeiro dia dos novos médicos do Pittsburgh Trauma Medical Hospital, apelidado pelos próprios funcionários de The Pitt, explicando o nome da série. E, como em qualquer emergência hospitalar, o caos reina. Como não é só no Brasil que o setor de saúde sofre negligência, o hospital funciona constantemente no limite, com escassez de recursos, de funcionários, de espaço e de descanso. Não há glamour, nem corredores impecáveis ou laboratórios futuristas, o que vemos é um hospital real, às vezes até feio, sempre barulhento e quase sempre cheio demais.
Diferentemente de séries como Grey’s Anatomy, a história não gira em torno da vida amorosa e pessoal dos médicos. E, diferentemente de séries como Dr. House, também não está preocupada em apresentar um “caso da semana” cheio de mistérios médicos complexos que precisam ser desvendados. Em vez disso, a série encontra um equilíbrio, vemos casos clínicos interessantes, mas sem a obrigação de acompanhá-los do início ao fim e conhecemos as vidas dos personagens por meio de conversas naturais, desabafos nos corredores, piadas internas e pequenos gestos.
Além disso, The Pitt retrata de forma surpreendentemente sensível a exaustão e a saúde mental dos profissionais de saúde. A série não reduz esses temas a explosões emocionais isoladas ou diálogos didáticos. Em vez disso, mostra como o desgaste se instala silenciosamente: nas olheiras permanentes, nos erros que ninguém tem tempo de processar e nas pausas inexistentes (em um capitulo acompanhamos a dificuldade de um dos médicos em achar uma pausa para fazer xixi).

Um dos grandes diferenciais da série é justamente seu compromisso com a precisão médica. Li diversas reportagens elogiando esse aspecto, inclusive de profissionais da área, destacando o nível de detalhamento e realismo raramente visto em dramas do gênero. Não é apenas sobre mostrar sangue ou procedimentos em close (embora ela faça isso, e muito bem), mas sobre entender e retratar a lógica do hospital: o ritmo, a hierarquia, as tensões entre setores, a burocracia que atrapalha, a exaustão que acumula, os pequenos milagres diários que não dependem de soluções geniais, mas de trabalho em equipe.
Um dos episódios que mais chamou atenção mostra o hospital recebendo vítimas de um tiroteio em massa e foi tão bem executado que virou tema de uma reportagem da Vanity Fair explicando todo o trabalho por trás das câmeras. A matéria conta que para escrevê-lo, os roteiristas conversaram com médicos que atuaram nos atendimentos ao atentado de Boston e em outros eventos similares para entender o hora a hora após uma situação tão traumática e devastadora. A consultoria foi tão profunda que a equipe criou um novo esquema de triagem emergencial, desenvolvido especificamente para o episódio, que está sendo avaliado para possível aplicação em situações reais de catástrofe. É o tipo de interseção entre arte e vida real que eu adoro. (E, correndo o risco de me perder aqui, mas mantendo o espírito da conversa: você sabia que a tornozeleira eletrônica foi inspirada em um quadrinho do Homem-Aranha?)
Dito isso, vale um aviso: The Pitt não tem problema algum ao retratar cenas gráficas. Tem sangue, tem ferimentos graves, tem procedimentos mostrados em detalhes. Não há romantização ou embelezamento. Eu, que raramente me impressiono com violência e cenas desse estilo, fechei os olhos durante uma cena de parto e ouso dizer que ela me assombra até hoje.
Outra coisa digna de prêmio, literalmente, é o elenco da série. Começamos por Noah Wyle, que ganhou um Emmy no papel do Dr. Michael Robinavitch, médico-chefe do plantão, alguém que não apenas dá ordens, mas carrega o fardo da responsabilidade. Ele transmite autoridade sem arrogância e equilibra momentos de comandos e frieza cirúrgica com outros de compaixão e cansaço. Essa ambiguidade torna o personagem humano, crível, complexo e Wyle abraça esse desafio com uma maturidade que só alguém com sua trajetória poderia oferecer. Robby não é um herói glamoroso: ele erra, sofre, se questiona, falha.
Outra premiada com um Emmy foi Katherine LaNasa, a enfermeira-chefe Dana, um dos grandes pilares emocionais do hospital (e da série.) Sua interpretação equilibra firmeza, vulnerabilidade, competência, carinho e humor com uma naturalidade impressionante. Também se destaca Taylor Dearden, filha do ator Bryan Cranston e a prova viva de que nepo babies podem, sim, ter muito talento. Como a residente Dra. Melissa King, ela traz um olhar sensível para um ambiente que, por sobrevivência, às vezes se torna emocionalmente automatizado. E Gerran Howell, que interpreta o meu personagem favorito, Dr. Whitaker, responsável por alguns dos momentos mais engraçados da série, ajudando a aliviar um pouco da tensão sem perder o drama.

E o motivo pelo qual resolvi escrever sobre essa série agora é simples: a segunda temporada estreia daqui a pouco, em janeiro de 2026. Já sabemos que ela vai se passar durante o feriado de 4 de julho, o que significa que os casos, o caos e a superlotação prometem. Portanto, se você ainda não viu The Pitt, aproveite para maratonar a primeira temporada e depois já emende na segunda. Se meu ano começou subestimando “mais uma série médica”, termina com a certeza de que essa série médica é uma das melhores coisas que a televisão fez recentemente.










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