Crítica - Anora

Críticas Gerais

Anora ganha força pelo seu ritmo movimentado e pela ótima atuação de Mikey Madison, mesmo trazendo alguns problemas.
Trazendo a garota de programa Ani, que após se casar com um jovem russo milionário, se vê em uma corrida para manter o casamento quando a família dele decide anular o casamento, Anora, assim como os filmografia de Sean Baker, investiga histórias e personagens pouco vistos no cinema (geralmente à margem da sociedade), e aqui não é diferente. Investindo o primeiro ato para apresentar seus personagens, é aqui que o filme se mostra incrivelmente irregular, já que mesmo trazendo certa sobriedade, gasta um enorme tempo para retratar personagens superficiais e vazios em situações idem e que pouco nos interessam (e nem mesmo a protagonista escapa) e os elementos interessantes que percebemos (como a família de Ani e a vida dela fora do trabalho, por exemplo), acabam sendo apenas periféricos e não são desenvolvidos, o que se torna irritante já que parece que o filme não tem um objetivo em mente. Mas quando o filme finalmente engata e coloca a história em movimento, é aí que ele se torna bem melhor e mais interessante: e a jornada que Ani e os capangas enfrentam (que ganha contornos de odisseia) na busca por certo personagem se torna uma imensa loucura, onde aí o caos narrativo que imperava antes se mostra mais controlado, adotando-o como forma de mover a história e sustentar o ritmo que aí sim, se torna movimentado, eletrizante e ligeiramente divertido, onde se inspira também nos filmes dos irmãos Safdie, que também adotam essa lógica, mas de forma bem mais extrema e indutora de ansiedade, embora aqui o diretor (que também é o montador do filme) se excede ao trazer algumas barrigas na trama, esticando sequências até o limite, tirando parte do efeito que ela poderia ter (como a sequência que Ani e Igor conversam na mansão lá no terceiro ato), o que leva o filme a ter alguns probleminhas de ritmo.
O que nos traz à protagonista Ani, que embora inicialmente conquiste o espectador com a simpatia e o carisma da atriz Mikey Madison, nos leva sempre a questionar se suas ações são autênticas ou se elas são fruto de um desejo de subir na vida e manter o status que conquistou com marido, e toda a intensidade para manter a sua posição como esposa se torna um elemento complexo, afinal, ela de fato gosta de Ivan ou está ali apenas pelo dinheiro? É um elemento que confere camadas complexas para a protagonista, afinal, quando ela recebe o pedido de casamento, ela não deixa de citar o tipo de anel que ela quer, e ela sempre deixou claro sobre o pagamento que ela vai receber pelo tempo que passa com Ivan, e aí entra o X da questão: estamos torcendo pelo amor deles ou por pessoas que querem atingir a vida fácil e que não querem perder isso? Questões assim tendem a levar o espectador a acompanhar o filme de uma maneira mais distante e menos emocional à narrativa, mesmo que o filme se esforce para contornar isso. Por outro lado, a atriz Mikey Madison merece ser louvada, já que a personagem supera esses questionamentos e ganha o espectador pela força, determinação e intensidade que a atriz confere a Ani, que não teme encarar os demais e não aceitar ser considerada alguém inferior apenas por ser uma garota de programa, além disso, a jovem atriz impressiona por demonstrar através do olhar que está reconhecendo que sua história não terá um final tão feliz quanto imagina, e é essa força e vulnerabilidade que leva o desfecho da protagonista a ser algo tocante.
Contando ainda com ótimas atuações (se Mikey Madison é o grande destaque, o elenco coadjuvante se sai muito bem, onde Mark Eydelshteyn convence como um riquinho mimado, Yura Borisov surge em uma atuação discreta, mas não menos eficaz como um dos capangas de Ivan, ganhando dimensões inesperadas para um personagem do tipo, enquanto Darya Ekamasova engole o filme com o forte veneno e imponência que confere para a mãe de Ivan), uma ótima fotografia (que ressalta bem a jornada da protagonista, indo das cores intensas para pouco a pouco a realidade e a sobriedade do seu mundo destruir seus sonhos e ideais, conferindo também uma eficiente atmosfera urbana ao filme), uma boa trilha sonora, enfim, é um ótimo filme.

 

Vencedor de 5 Oscar 2025 nas categorias de Melhor Filme, Melhor Direção - Sean Baker, Melhor Atriz - Mikey Madison, Melhor Roteiro Original e Melhor Montagem, foi também indicado na categoria de Melhor Ator Coadjuvante - Yura Borisov.

 

Gênero: Comédia Dramática
Duração: 139 Minutos
Distribuição: Universal Pictures
Direção: Sean Baker
Elenco: Mikey Madison, Mark Eydelshteyn, Yura Borisov, Karren Karagulian, Vache Tovmasyan, Darya Ekamasova e Aleksey Serebryakov

 

Essas e outras críticas, você pode ler aqui:

https://criticasdefilmes1.wordpress.com/

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