Simplesmente Natal
Críticas GeraisTem algo de muito reconfortante em saber que, em meio ao caos de dezembro, existem filmes que nos devolvem a sensação de que o mundo pode ser um lugar melhor. Todo mundo tem um filme de Natal que carrega essa função: “A felicidade não se compra”, por exemplo, é talvez o grande exemplo desse consolo cinematográfico; para quem odeia a data, como a minha irmã, sempre existe o “Grinch” para celebrar às avessas. No meu caso, eu gosto de todos eles, mas tenho um pequeno favorito: “Simplesmente Amor”. Vi no cinema, depois tive o DVD, a trilha sonora, os diálogos decorados – e, desde então, todo Natal ele virou parte oficial do meu fim de ano.
Enquanto a cozinha ferve com um monte de panelas, forno ligado e aquele cheiro de comida tomando conta da casa, eu fico no quarto com o ar-condicionado ligado no talo. Fico indo e vindo: dou uma passada na cozinha, “provo” um pedaço de tender, um bolinho de bacalhau, uma rabanada antes da hora, e volto correndo para o quarto. Esse contraste entre o calor do verão carioca e o frio imaginário de um Natal de filme cria uma sensação curiosa, em que o barulho das panelas parece completar a trilha sonora (maravilhosa) que sai da TV.
Quando eu era mais novo, minha história favorita era, de longe, a de Mark, Juliet e Peter – aquele triângulo amoroso impossível, com cartazes na porta. Era fácil se apaixonar pela ideia desse amor silencioso, platônico e, ao mesmo tempo, profundamente melodramático, porque ele falava diretamente com as paixões dessa época. Na minha cabeça, havia algo de romântico em sofrer em silêncio, em transformar o que não pode ser vivido em gesto grandioso, registrado em papelão.
Com o tempo, no entanto, outras histórias foram ganhando peso, e hoje a que mais me atravessa é a de Harry, Karen e Mia. Quando penso no filme agora, a primeira imagem que me vem não é mais o cartaz na porta, mas Emma Thompson escutando Joni Mitchell e desabando em silêncio. Aquela cena, que passava batida, hoje me parece o coração do filme: o momento em que o Natal deixa de ser fantasia e vira realidade. O ponto em que alguém percebe que foi traído. A dor dela é contida, adulta, feita de anos de casamento, filhos, rotina, pequenos pactos – e é justamente por isso que ela dói mais.
“Simplesmente Amor” é uma comédia romântica que entrelaça várias histórias diferentes de amor em torno do Natal, usando a data como uma espécie de cola entre os personagens. Mas, revendo ano após ano, o que antes parecia apenas um mosaico de histórias passa a funcionar quase como um teste emocional: a cada dezembro, uma história se destaca mais do que as outras, dependendo do momento que eu estou na vida. Entre um belisco na cozinha e outro, volto para o quarto, apago um pouco a realidade do calor lá fora e me deixo envolver por esse mundo em que o Natal costuma ser lembrado como a época dos finais felizes; mas, quando eles não são possíveis, a gente precisa aceitar o que quebrou, cuidar do que sobrou e encontrar jeitos de seguir – nem que seja assistindo, mais uma vez, ao mesmo filme de sempre.





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