Hannibal no Divã 🛋️🧠 uma Conversa Informal Sobre Terapia e Vilania 🦇🔪

Personagens

Dizem que os vilões se tornam humanos em um divã, será que é verdade? O que aconteceria se Hannibal Lecter fosse esse vilão?

Bem, no caso desse vilão, ele já está em terapia obrigatória, lá em uma cela do Instituto Psiquiátrico Estadual de Baltimore, onde recebe visitas e é submetido a análises constantes, com a mesma elegância com que escolhe um vinho para seu jantar da noite.

O cinema nos mostrou que esse assassino em série não é movido pela maldade pura; o que o motiva é uma necessidade de tentar digerir seus próprios traumas, e ele faz isso literalmente, dissecando outros para dissecar seus próprios demônios do passado. Qualquer psicanalista teria nesse paciente um desafio monumental.

Na icônica cena em que o doutor Lecter é interrogado por Clarice Starling, agente do FBI, fica claro que ela é quem está sendo analisada. Ali vemos como Lecter, agora no papel de psiquiatra, provoca a agente Starling, cutucando suas feridas e soltando sutilmente algumas confissões para manipular Clarice.

O doutor Hannibal Lecter não quer ser curado, essa é a perturbadora verdade que qualquer psiquiatra encontraria. Se ele fosse colocado em um divã para ser psicanalisado, o terapeuta se depararia com um paciente que não mente sobre seus sentimentos (apenas os disfarça com cortesia).

Lecter não esconde seu passado, ele o reedita, buscando um desfecho que nunca acontecerá.

O passado desse assassino foi o que o transformou no monstro que é hoje, nascido em 1933 em uma família aristocrática lituana e com um antepassado lendário e violento chamado Hannibal, o Temerário, um antigo guerreiro. A violência desse personagem está em seus genes.

A Segunda Guerra Mundial também marcou muito a infância de Hannibal Lecter, com a invasão dos nazistas.

Mas a perda da família foi a gota d'água, primeiro com a morte de seus pais e depois com a horrível morte de sua irmã Misha, canibalizada por soldados soviéticos; essas experiências trágicas fundiram sua personalidade com a violência. Se um psiquiatra tentasse separar a personalidade de Hannibal Lecter de sua violência (tarefa praticamente impossível), ele morreria, porque a violência é sua identidade.

Se existisse um medicamento que pudesse curar esse psicopata, ele rejeitaria essa oportunidade e, no caso de ser obrigado a usar esse medicamento milagroso, no melhor dos casos, ele se tornaria uma pessoa comum, e para Hannibal, isso seria matá-lo. Imagino o doutor Lecter deitado no divã com um sorriso de orelha a orelha e seu psicanalista com a face descomposta e suando frio, com uma sensação gelada percorrendo sua espinha dorsal de baixo para cima. Essa sessão terapêutica seria um diálogo de repressão, sublimação e defesa do ego.

Cada ato de canibalismo desse personagem não é apenas um ato de sadismo, é uma tentativa de Hannibal Lecter de tentar entender o que o devastou, seria como uma autoterapia do terror. Existe uma verdade muito desconfortável com esse assassino em série: o passado nem sempre redime, também deforma as pessoas.

É por isso que, no caso de uma terapia a Lecter, descobriríamos que o divã não transformaria o vilão; ao contrário, veríamos nosso singular paciente como ele realmente é: intocável, brilhante e irrevogavelmente perdido.

 

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