Crítica - Frankenstein

Críticas Gerais

A clássica obra de Mary Shelley já foi adaptada diversas vezes aos cinemas, uma delas a versão em preto e branco de 1931, além de Frankenstein De Mary Shelley, e algumas recentes que não são lá muito interessantes. O que nos traz a este Frankenstein, que traz um visual deslumbrante e se revela um filme belo e emocionante, uma fábula sobre a vida e a morte.
Contando a história de um cientista que decide criar um ser humano a partir de pedaços, Frankenstein reconta o clássico literário sob o olhar do diretor Guillermo del Toro, adotando uma narrativa que flerta apropriadamente com o romance gótico com seus momentos de melodrama e beleza que se equilibram com as passagens mais brutais e impactantes. E se a primeira metade leva certo tempo para engatar (onde também encontra dificuldade em equilibrar os próprios tons narrativos, que soam ligeiramente extremos), a partir do momento que a criatura surge em cena, o filme ganha ritmo e maior força dramática, o que até me leva a perdoar parte do primeiro ato, permitindo que a partir dali a história se desenvolva com a paciência necessária, sem se tornar cansativo, mas também emocionando a partir do desenvolvimento de seus personagens, e encantando com sua beleza plástica.
E como de hábito nos filmes de del Toro, o diretor encontra em Frankenstein o filme perfeito para colocar seu apego por monstros e criaturas diferentes a fim de encontrar sua alma. O que nos traz é claro, à criatura do filme: Inocente, mas consciente do mundo ao redor, é ao permitir um olhar sobre a sua própria fundação, que a criatura também passa a conhecer a humanidade, a natureza humana e a sua capacidade para a violência, o que claro, revela também a forma grotesca de como nasceu. Com isso, o diretor passa a explorar não só a humanidade dela (e também a sua própria autodescoberta), mas também a nossa ao colocar um espelho sobre nós, afinal, em sua busca para encontrar sentido na vida e alguma paz, ele conhece a nossa capacidade para o bem, mas também para o mal, conhecendo o amor, mas também o ódio, e os complexos sentimentos que nascem através deles. E ao ter seu Criador se voltando para sua própria criação, o filme também estabelece o terror de se descobrir sem propósito, onde comenta a nossa necessidade de buscar um sentido na vida, o que claro, pode nos levar a buscar divindades, algo que para nós, reles mortais, não temos a mesma chance que a Criatura teve com Victor, que para todos os efeitos, é Deus para ele. Além disso, a busca de Victor na criação de um corpo perfeito também reflete a nossa busca de entender a morte, pela compreensão de algo maior que a vida, e a complexa e trágica história entre Criador e Criatura se torna um elemento triste da jornada desses personagens.
Visualmente belíssimo (o que não poderia ser diferente em uma obra de Guillermo del Toro), o filme sempre impressiona em seu trabalho técnico: Os figurinos excepcionais e cheios de detalhes sempre impressionam pela sua beleza, a fotografia traz grandeza visual e plástica ao filme, com uma paleta de cores vívidas e deslumbrantes (e há enquadramentos dignos de serem emoldurados como aquele que vemos o vestido vermelho da mãe de Victor esvoaçando ao vento), enquanto o design de produção faz uma recriação de época absolutamente impecável, encantando com a beleza de seus cenários, desde o castelo que servirá de palco para as experiências com a criatura passando pela simplicidade da moradia que a Criatura passa a viver. Enquanto isso, a maquiagem e penteados são impecáveis, embora confesso que o design da Criatura se mostra curioso, já que se revela um ser bem mais esculpido do que um ser cheio de deformações e costuras (mesmo que possa ser justificado pelo metodismo constante do pai de Victor). Já a trilha sonora do compositor Alexandre Desplat é belíssima, pouco remetendo aos seus trabalhos anteriores e trazendo o clima certo de emoção, tragédia e grandiosidade necessários para a história (embora aqui, em um erro de modulação por parte do diretor, este permite que a sequência da construção do corpo tenha um tema musical que achei bonitinho demais e que não se encaixa com o grotesco visto naquelas cenas).
Deixando alguns furos (como a capacidade da criatura de se regenerar e de ter adquirido uma superforça), o filme ainda traz excelentes atuações (Oscar Isaac demonstra muitíssimo bem a complexidade de sua jornada ao longo do filme, indo da obsessão em criar um ser perfeito à rejeição pelo que criou, além do seu desfecho tocante, Jacob Elordi surpreende e adota uma composição física excepcional onde através da da movimentação do seu corpo e da voz lenta e pausada, demonstra alguém ainda compreendendo a linguagem humana e o seu próprio corpo, mas também traz uma doçura e uma humanidade que contrapõe sua força bruta, tornando-se na atuação mais bela do filme, Mia Goth traz beleza e doçura para a história e David Bradley confere uma tocante humanidade e sabedoria para o seu personagem) e ótimos efeitos sonoros e especiais (estes últimos, falham por alguns dos animais digitais que não convencem bem, mas aqueles que não chamam atenção para si, são fantásticos).
E não deixa de ser curioso como este Frankenstein conversa com os trabalhos anteriores de del Toro, que em seu trabalho anterior Pinóquio era criado como um verdadeiro Frankenstein enquanto A Colina Escarlate cita a autora Mary Shelley (e até mesmo a relação da Criatura com Elizabeth espelha aquela vista em A Forma Da Água), o que fecha um ciclo perfeito com a criação deste filme, e nada mais justo que seja na beleza da vida que a trágica Criatura possa encontrar, enfim, a paz que tanto procura. Mesmo que reconheça as nossas falhas humanas no processo.
 

Gênero: Drama/Suspense/Ficção Científica
Duração: 150 Minutos
Distribuição: Netflix
Direção: Guillermo del Toro
Elenco: Oscar Isaac, Jacob Elordi, Mia Goth, Felix Kammerer, David Bradley, Lars Mikkelsen, Charles Dance e Christoph Waltz

 

Essas e outras críticas, você pode ler aqui:

https://criticasdefilmes1.wordpress.com/

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