À deriva de um ecossistema alienígena.
Críticas GeraisNão há série que me deixou com um sentimento tão estranho de medo e deslumbramento quanto essa. Num cenário em que a ficção científica é governada por exigências realistas que matam o potencial criativo e fantasioso particular do gênero, a animação “Scavengers Reign”, ou “Planeta dos Abutres”, como foi traduzido no Brasil, se mostra como uma produção absurdamente inventiva que merecia mais atenção. A série possui uma única temporada que é uma experiência independente com arcos narrativos completos. Infelizmente, por enquanto, ela é tida como descontinuada, apesar do ímpeto de produzir outras temporadas já expressado pelos criadores.

A trama, inicialmente, possui uma premissa simples: um grupo de tripulantes de uma nave, a chamada Demeter 227, acaba preso num planeta desconhecido. Fragmentados e incomunicáveis, cada um deles cria uma relação particular com seus companheiros e com o cenário que os cerca, sendo que, ao decorrer dos episódios, cada núcleo se aproxima dos destroços da nave e enfrenta árduos desafios de sobrevivência. Porém, não é sobre as incríveis tramas que interagem de maneira novelística que eu gostaria de me dedicar a falar aqui, mas sim de como toda a obra é permeada por um sentimento de solidão, encantamento e, ao mesmo tempo, uma hostilidade meio assustadora.

Há algo de profundamente hipnótico em como “Scavengers Reign” constrói sua atmosfera. O planeta não é apenas cenário, mas presença: um organismo pulsante, que respira por meio de sua configuração estética. A harmonia entre imagem e trilha sonora é meticulosa em construir os dramas de uma solidão humana atravessada pelos processos que constituem aquela natureza. Estamos diante de uma interligação complexa entre interações biológicas que formam um quebra-cabeça orgânico. Esse visual encanta, já que representa a manifestação formas de existência completamente anômalas para nós, é um vislumbre quase que místico. Porém, justamente por serem incompreensíveis, suas causas e efeitos são indetermináveis, então sempre paira um clima hostil, a ameaça é o próprio cenário em sua vastidão e imprevisibilidade amedrontadoras.

Assim, ao assistir à série embarcamos numa imersão que se dá por uma consciência técnica que compreende a ficção científica como um espaço de reinvenção sensorial. As texturas do som, a organicidade singular das criaturas, os detalhes estratificados do ambiente: tudo contribui para nos infectar pelos rituais que constituem a vida e morte no planeta Vesta. A contraposição inicial entre humano e alienígena, entre tecnológico e natural, gradualmente se dissolve em contágio: os personagens parecem ser lentamente assimilados por esse ecossistema, assim como nós, que somos sujeitos à mesma experiência através da forma.

Esse gesto parece retomar a gênesis da ficção científica como conhecemos hoje, pois assim como o monólito de “2001: Uma Odisseia no Espaço” ou o planeta alucinador de “Solaris”, Vesta encarna esse cosmos que devora e deforma subjetividades através da imagem. É aquela sensação de contemplar o céu noturno estrelado: nos assusta por materializar nossa pequeneza diante da imensidão do universo, mas, ao mesmo tempo, nos seduz em sua beleza inigualável e evoca a possibilidade de fantasiar que vidas podem existir por lá. Entre o medo e o milagre, a vida persevera para além daquilo que o humano pode dominar, o que resta é se deixar infectar.



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