BLUE MOON (2025)
Críticas Gerais
Assistir a uma peça de teatro gravada pode dar a sensação de que está faltando algo — e realmente está. Toda a obra que estamos assistindo foi pensada para ser interpretada ao vivo, diante do espectador; toda a sua potência e emoção estão justamente nessa interação, nesse ato de dividir o mesmo espaço com a plateia. Assistir Hamilton em casa pelo Disney+, com certeza, não é a mesma coisa que ver o Marquês de Lafayette rimando na sua frente. Então, por que fazer um filme — e não uma peça — para contar a história da noite de estreia de Oklahoma!, um dos maiores musicais da história dos Estados Unidos? E mais: por que não fazer uma peça para contar a história de Lorenz Hart, que tanto contribuiu para o gênero? Porque o diretor Richard Linklater tinha um plano — e o plano se chamava Blue Moon.
O filme acompanha a noite de estreia do musical Oklahoma!. O letrista Lorenz Hart (Ethan Hawke), em meio a uma crise pessoal, espera sua pretendente Elizabeth Weiland (Margaret Qualley) no bar onde acontecerá a comemoração do sucesso da peça escrita por seu antigo parceiro Richard Rodgers (Andrew Scott).
Todo o desenrolar do filme se baseia na interação entre os personagens e em seus diálogos. O cenário não muda — vemos diferentes ambientes, mas todos localizados dentro do bar. Lorenz Hart é a locomotiva da história: incessantemente traz questionamentos e histórias para qualquer um que lhe dê um simples aceno positivo para conversar. Além de aprofundar a trajetória dos personagens, o filme também propõe reflexões sobre o próprio ato de escrever. Hart foi um dos maiores letristas norte-americanos, conhecido por sua sofisticação lírica — algo destacado em passagens em que ele divaga sobre a fonética das palavras, como em uma conversa com E.B. White (Patrick Kennedy), que também está no bar.

A sensação diante desse grau de aprofundamento nos diálogos, é a de estarmos assistindo a uma peça de teatro, em que o cenário funciona apenas como pano de fundo para que as interpretações sejam a grande força da obra. Por esse direcionamento, algumas divagações que vemos ajudam a transmitir naturalidade, sem parecer que todas as falas são meticulosamente esculpidas — embora, na verdade, sejam. Isso faz total sentido considerando a história de Lorenz, tão cuidadoso no uso da palavra certa para cada momento, o que transforma o filme em uma homenagem à própria obra do artista.
Ethan Hawke consegue trazer em sua atuação a ideia desse homem quebrado que é Hart: um artista em momento difícil da carreira, que, mesmo tendo controlado o vício em álcool, parece viver apenas o eco de sua antiga glória. Em diversos momentos, o vemos tentando se reaproximar do ex-parceiro Rodgers, agora no auge com a nova peça. Conseguimos acessar o lado mais íntimo de Hart nas trocas com Elizabeth — uma estudante de artes vinte anos mais nova por quem ele está apaixonado. A relação de admiração que nutre por ela revela sua faceta mais romântica e vulnerável. Como no teatro, quando estão juntos, a luz parece diminuir e o foco se concentra totalmente neles, mergulhando o espectador no interior de cada um.
Manter um filme sustentado apenas pelos diálogos não é tarefa fácil, mas, quando acertada, transforma a experiência em um portal — em que cada escolha de palavra, cada ritmo, cada pontuação nos conduz a outro lugar, como se a história também acontecesse dentro da nossa cabeça, enquanto imaginamos junto com os personagens o que eles nos contam. Sem recorrer a muletas, Linklater entrega um filme que faz jus à história que propõe — como se Blue Moon transbordasse a tela diante de nós, e estivéssemos vendo os personagens bem à nossa frente.





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