Doc & Marty | Para além do futuro: à atemporalidade
PersonagensSeja em 1985, 1955, 2015, 1885, ou em qualquer outra época, lá estarão Marty McFly e Doc Emmett Brown tentando resolver algum B.O. para que as consequências não sejam desastrosas, e o contínuo espaço-tempo não seja destruído por conta de um terrível paradoxo. Não há como deixar de lembrar dessa dupla quando se trata de melhores relacionamentos do Cinema. Confesso que, ao pensar sobre o tema, fiquei muito tentado a escrever sobre alguns casais românticos emblemáticos. E mesmo pensando, repensando e, até mesmo, esboçando alguns rascunhos sobre um em específico, não pude me conter. Acabei desistindo e aceitando cair na tentação de escrever um pouco sobre meu filme favorito da vida. Com mais coração. Não é um casal romântico, mas sim uma dupla de amigos. Uma amizade que o mundo todo conheceu há 40 anos (sim, esse ano o primeiro filme da trilogia faz 40 anos!) no nosso tempo real em que vivemos. No entanto, no universo em que viajamos juntos com esses personagens, no inconfundível DeLorean, essa amizade perdura desde os tempos do Velho Oeste (pelo menos, segundo os registros antigos da biblioteca de Hill Valley - pode conferir lá!).

Dirigido por Robert Zemeckis, escrito por Zemeckis e Bob Gale e estrelado por Michael J. Fox e Christopher Lloyd, “De Volta Para O Futuro” é uma aventura de ficção científica lançada em 1985. Considerado um clássico da cultura pop, toda a saga apresenta inúmeros elementos icônicos que entraram para a história do Cinema, como o próprio DeLorean, o capacitor de fluxo, “Johnny B. Goode” no fim do baile, skate flutuante, os paralelos entre as perseguições na praça de Hill Valley, além do carisma ao construir as tramas dos outros personagens como, por exemplo, as inúmeras derrotas do vilão (que é a pura definição de “amo odiar”) Biff Tannen, e as desventuras dos pais de Marty, George e Lorraine. Entretanto, mesmo em meio a tantos componentes notáveis, o coração de toda a história sempre foi a relação entre Marty e Doc Brown.

Os homens fora de seu tempo
Marty é um típico adolescente maneiro dos anos 80. Com seu jeito descolado, anda de skate pelas ruas da cidade, namora a garota de seus sonhos e é guitarrista de uma banda de rock. Por sua vez, Doc Brown é um excêntrico cientista, com um visual que escancara a imagem de “cientista maluco”, realizando suas invenções dentro de diversos ramos de estudo, mas principalmente com seus experimentos relativos à viagem no tempo. A princípio, olhando no papel, o que um tem a ver com o outro, não é mesmo? E o filme não apresenta nenhum flashback ou explicação de quando ou como se iniciou essa amizade. Mas, na boa, precisa? Creio que muitos de nós nunca sequer nos perguntamos isso. Até porque a química é tão perfeita que na primeira cena juntos, já compramos a ideia que os dois são parceiros de longa data. Eu mesmo, por exemplo, só fui me perguntar “nossa, de onde eles se conhecem?” quando devia ser a quinta ou sexta vez que estava maratonando os três filmes (faço isso anualmente! Inclusive, recomendo!). Portanto, apenas refletindo sobre essa “falta”, já podemos chegar a conclusão de que, além da ótima relação estabelecida pelo roteiro e a direção, temos o ótimo trabalho “completo” desempenhado pelos seus atores.

Michael J. Fox, à época com 24 anos, ainda não era mundialmente famoso. Seu papel de maior destaque, até então, era no seriado de TV “Caras e Caretas” - inclusive, durante as gravações do filme de 1985, Fox teve que fazer jornada redobrada, pois a diretoria da série não havia o liberado para as gravações do longa, fazendo várias rodagens serem realizadas durante a madrugada. Além disso, ele nem sequer foi a primeira escolha. É de conhecimento público, a infame história sobre a substituição de Eric Stoltz para a entrada de Fox. É possível encontrar diversas imagens e gravações de Stoltz gravando boa parte do longa. Porém, sua performance não estava agradando as vontades de Zemeckis, alegando que a personagem de McFly deveria transparecer mais humor e carisma. Além disso, estava faltando certa química com Lloyd, o que era fundamental para a imersão.

Aliás, falando sobre o mestre: Christopher Lloyd, à época com 47 anos, já era um ator respeitado, com grande notoriedade nos palcos de Teatro e séries de televisão, desde os anos 60. Seu grande papel notável, antes do filme, foi em um seriado chamado “Táxi”, do final dos anos 70, contracenando com Danny DeVito e Andy Kaufman. Sua habilidade dramática performática associada a sua fisicalidade dentro da comédia caíram como uma luva para o papel desse cientista maluco. Suas falas e ataques de desespero ao longo dos filmes são maravilhosos, como “Great Scott!” ou “as consequências seriam desastrosas”.
Assim que Fox, graças à insistência de Zemeckis, entra para o elenco, forma-se o casamento perfeito. A química entre o enérgico, alto e espalhafatoso Doc Brown, vivido por Christopher Lloyd, e o confuso, baixinho e engraçado Marty McFly, encarnado por Michael J. Fox, é simplesmente satisfatória. Visualmente, é absolutamente emblemático. Essa imagem de um cientista grisalho com o cabelo bagunçado, e um jovem tentando entender o que está acontecendo, acabou se tornando muito figurativa e facilmente reconhecível, servindo como uma clara inspiração, por exemplo, para “Rick and Morty”, além de outras referências em diversas produções ao longo dos anos.

88 milhas por hora
Basicamente, nos três filmes acompanhamos todo o arco da relação entre os dois. No primeiro, temos a famosa cena do Twin Pines Mall (até então, depois vira Lone Pine), ainda em 1985. Ali já entendemos que Doc Brown está trabalhando com viagem no tempo há anos, e que confia genuinamente em McFly ao solicitar sua ajuda para registrar esse momento ímpar que estava prestes a acontecer. Depois disso, começamos a acompanhar suas interações no ano de 1955, com a versão mais jovem de Brown. É aqui onde a magia acontece. Marty, em apenas uma manhã, acaba mudando diretamente as peças fundamentais do seu passado. E a forma como isso vai escalonando, à medida que Brown vai percebendo a gravidade da situação é hilária. Inclusive, isso da “gravidade” rende uma passagem muito boa quando Marty solta um “this is heavy” e Doc questiona o porquê dessa fixação com o “pesado”, seria por conta de algum “problema relacionado à gravidade?”. É simplesmente maravilhoso!
Conforme o longa vai se desenrolando, Doc deixa claro o quanto ele não pode ter o conhecimento de certos acontecimentos, devido ao perigo que isso implica no espaço-tempo. Porém, Marty sabe que na noite em que viajou no tempo, Doc foi baleado, e precisa encontrar alguma maneira de salvá-lo. Aqui está o drama mais comovente do filme, pois - mesmo que implicitamente - há uma questão de curiosidade tentadora muito interessante nesse cenário. A temática da tentação seria explorada com mais desenvolvimento na sequência (com a trama do almanaque roubado pelo Biff). No caso desse primeiro, a tentação não seria de caráter ganancioso (como a do vilão), mas sim de pura curiosidade em relação à sua própria vida. Brown simplesmente adquire a informação de que seria o inventor de uma máquina do tempo, e que daqui a 30 anos seria morto após realizar o grande feito de sua vida. É como se, a partir do momento em que ele assiste à gravação feita por Marty daquela noite, Brown já soubesse o que seria seu propósito final, tendo que conviver com aquela informação durante esses anos que lhe restavam, pois sabia de tudo que já estava escrito. É certo que nessa cena, McFly flagra o momento em que Brown está assistindo à fita. E mesmo não assistindo de fato o seu assassinato, pois a gravação não estava “completa”, fica no subtexto que o cientista já entendeu o seu destino. Podemos abrir um parênteses aqui com essa reflexão, sobre o que faríamos se soubéssemos quando, onde e como morreríamos, tendo a consciência de que tudo que você fará a partir disso, na tentativa de impedir o fatídico final, poderá implicar em um paradoxo ainda mais perigoso.

Seguidamente, no terceiro ato, pouco antes da famosa sequência do momento exato em que o DeLorean precisa ser atingido pelo raio para o nosso protagonista poder voltar para o futuro, McFly escreve uma carta para Brown abrir apenas em 1985. Porém, Brown percebe a carta e a rasga, reforçando seu temor em saber sobre o futuro e o quanto isto é extremamente proibido para o equilíbrio do Universo. E mesmo com Marty - como ele mesmo diz - tendo todo o tempo que quiser, voltando antes do momento da tragédia, teve que assistir de camarote, pela segunda vez, ao assassinato de seu melhor amigo. Porém, após um sentimento de vazio, dando a sensação de que esse esforço acabou sendo em vão, Brown desperta e revela que estava com colete à prova de balas. Marty questiona todo aquele papo sobre o espaço-tempo contínuo, e Brown responde: “E daí?”. E aqui se completa o arco, do primeiro filme, dessa maravilhosa relação entre duas pessoas totalmente diferentes. Não existe futuro ou passado, o que existe agora é o presente. O futuro e o passado soam como ideias, um é o que queremos que seja, o outro é o que achamos que foi. Não importa as consequências do que já aconteceu, e as consequências do que virá, pois isso acabará nos limitando a realizar o que precisamos fazer (reforço: não o que, necessariamente, estamos predestinados a fazer, mas sim o que precisamos fazer). Parte desse grande ensinamento que levo comigo desse filme tão especial, é apenas um terço de uma grande amizade que se torna ainda mais forte na Parte 2 e 3.
As duas sequências, assim como foi durante as gravações, são diretamente ligadas. É impossível terminar de assistir ao segundo e não querer já ir correndo para o terceiro. Dentro do que diz respeito à relação entre a dupla, na Parte 2 temos o primeiro ato com cada um de seus personagens tendo suas jornadas individuais no ano de 2015, contando agora com a adição de Jennifer, a namorada de Marty, na jornada; o segundo ato com os dois lidando com uma realidade alternativa, da qual ambos não tiveram um futuro promissor (talvez nem sequer tiveram a oportunidade de se conhecer); e o terceiro ato sacramentando a dupla dinâmica perfeita tendo que voltar para 1955 a fim de resolver toda a situação. No fim, DeLorean é atingido por um raio, fazendo Doc desaparecer junto com o veículo, deixando Marty desamparado sem saber o que fazer. Até que uma carta misteriosa originada do ano de 1885 aparece, dizendo ao jovem que seu amigo está bem e agora vive em sua época favorita: o Velho Oeste. Marty rapidamente corre em direção à versão de 1955 do cientista, na tentativa de resgatar seu melhor amigo.

Por sua vez, a Parte 3 é um show à parte para quem gosta de faroeste, com diversas referências ao gênero. Assim que McFly viaja até essa época, Brown revela que deixou claro na carta que não precisava, pois ali ele estava reconstruindo sua vida. O que é muito interessante de se pensar, pois Brown já havia vivido durante todos aqueles 30 anos, sabendo do que iria fazer. Isto é, assim que realizasse o grande feito de sua vida, poderia estar aonde e quando quisesse, já que não havia esposa ou filhos no seu tempo que pudesse lhe “segurar”, de certa forma. É nesse contexto que entra a personagem Clara Clayton, o grande amor da vida de Brown, só que no século XIX. Isso faz com que Brown entre em um dilema entre voltar ao seu tempo ou permanecer no passado e viver seu último romance. Após todas as desventuras do longa, a narrativa se conclui com McFly sendo o único que conseguiu retornar para o futuro, e a máquina do tempo, consequentemente, acabou sendo destruída. Nesse momento do filme, conseguimos sentir o vazio dentro de Marty, ao mesmo tempo que um respeito e sensação de dever cumprido do amigo, do qual queria aquilo, pois já havia deixado isso claro.

Até que chegamos na última cena de toda a saga. Marty, ao lado de Jennifer, mostra os destroços do DeLorean, contando tudo o que aconteceu. Até que, como mágica, Doc e Clara surgem agora com uma nova máquina do tempo - uma locomotiva - acompanhados de seus filhos. Doc voltou para se despedir de seu amigo, pois agora sim o arco dos dois estava concluído (e suas vidas estavam apenas recomeçando). Jennifer questiona Doc sobre um papel que trouxe do futuro, e que agora está em branco. Doc, sorridente, responde: “É claro que está vazio. O futuro não está escrito. O de ninguém está. O seu futuro é o que você quiser, portanto faça dele algo bom”. Isso ecoa na minha cabeça desde quando eu era apenas uma criança que assistiu à esse filme pela primeira vez. Levo comigo esse aperto de mãos entre Marty e Doc, como se fosse um aperto de mãos entre meus próprios amigos. Amigos que nunca vi na vida pessoalmente, mas me sinto tão confortável na presença deles que todos os momentos em que consigo prestigiá-los, guardo no tempo como algo atemporal. Muito além de passado, futuro e presente, há a atemporalidade. Aquilo que não se afeta com o passar do tempo, permanece intacto apesar de tudo.
Ruas? Para onde vamos, não precisamos de ruas!
Por fim, afirmo que a amizade entre Doc Brown e Marty McFly sempre será uma das mais emblemáticas do Cinema, e é minha dupla favorita de todos os filmes. A cada aparição pública de Christopher Lloyd e Michael J. Fox, seja em programas de televisão ou eventos, é como se fosse um encontro com velhos amigos, daqueles que mesmo que você esteja distante há algum tempo, sempre que se reencontram é como se nunca tivessem ido. Para mim, os dois serão sempre a minha companhia há anos quando quero me sentir confortável ao assistir um filme. Isso sim é atemporal! Por todo sempre, mesmo daqui a 30 anos (e além disso), irei assistir à essa dupla e sentirei o mesmo aconchego no coração, como na primeira vez.















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