O leopardo das mentes

Críticas Gerais

     Sean Penn faz parte de um seleto grupo de atores e atrizes que conseguiriam trazer um peso inesperado e bem vindo a uma cena como a do leopardo das neves em “A vida secreta de Walter Mitty”. Na primeira vez que assisti ao filme, já fui impactado profundamente por esse momento. Foi como se, de repente, algo que estivesse sempre guardado em mim, embora eu pouco o tivesse expressado, ficasse claro como alguma sabedoria notória da humanidade, adquirida ao longo dos séculos. Tamanha sensibilidade para essa cena, vinda de um dos grandes atores da história do cinema, deve ser aplaudida, assim como a direção de Ben Stiller.
     Não me considero saudosista e não quero ser mais um adulto que admira o passado, talvez idealizado demais, e não consegue enxergar ou admitir a existência das coisas boas no presente. No entanto, sinto uma desconexão no mundo atual, nas relações humanas, que me deixa melancólico em alguns períodos mais difíceis. Creio que a lágrima no rosto de Sean O’Connell é cada vez mais rara nas faces das pessoas reais. Mas não descarto o fato de que eu apenas esteja achando feio o que não é espelho, como diria Caetano.
     Viver o momento em sua plenitude, estando cem por cento ali, não é fácil. Requer maturidade e uma sensibilidade apurada. Hoje, com 36 anos, lembro de situações que vivi sem realmente viver e me sinto frustrado e arrependido. É claro que o oposto aconteceu, nem sempre fui distraído por coisas que realmente não importavam. Sou grato por esses momentos, mas sei que aconteceram em menor quantidade. O que resta é fazer um esforço diário para que eu tenha o necessário e que o banal seja cada vez menos frequente.
     Quando o leopardo entra na cena e o fotógrafo deixa a câmera de lado, muitas coisas estão representadas no felino, coisas e pessoas diversas, situações que se aplicam a inúmeros humanos ou talvez a apenas um ou dois. Talvez o animal deixe a sensação de remorso ou, quem sabe, a certeza de algo bem vivido, porém finito. Tudo acaba, nada permanece. E por mais que a gente tenha o privilégio de ter sabido apreciar o que viveu, o ocorrido só ficará na memória. Para mim é o suficiente, e para você? Indo mais longe, é só o que realmente importa nessa vida. E seguirá importando até a própria vida acabar. Depois, não sei.
     Falar sobre as virtudes técnicas dessa cena é chover no molhado, desde a atuação a ambientação, passando pela fotografia e direção, tudo ali encaixa perfeitamente. O filme em si, confesso que não está na minha primeira prateleira de filmes favoritos, embora goste bastante dele. Mas no topo da outra prateleira, lugar em que estão as cenas que mais me marcaram, essa certamente está.
     O leopardo segue seu rumo, as pessoas também. Quando fica só a neve caindo na montanha e o olhar grato do fotógrafo, queremos ser ele e “ficar no momento”. Queremos as mãos enrugadas e acolhedoras da avó costurando em um dia qualquer não apreciado inteiramente, o vento batendo no rosto de forma refrescante em um dia quente de verão, o momento de família reunida contando histórias e de verdadeira comunhão, ou então, o sorriso sincero no rosto de quem amamos. Um gol aos 44 minutos do segundo tempo, talvez. Independentemente do que queremos, será temporário, raro e irá acabar.
     Cada um tem seus próprios leopardos das neves, desde aquele que consegue ter uma vida pacata, sem grandes sustos, situado em sua estabilidade por vezes monótona, até a garota vivendo seu caos interno, com seu balão vermelho nas mãos, insistindo que “há sempre esperança”. Uma hora o vento bateu e não teve como segurar a corda, o balão se foi, passou e não há mais esperança. Pelo menos não para aquele momento. 



 

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