Crítica - Aqui

Críticas Gerais

A vida é uma caixinha de surpresas. As casas que moramos abrigam histórias que vão muito além do nosso tempo, e a vida acontece muito antes de termos nascido e continuará muito após a inevitabilidade da nossa morte e quando nossos nomes serão apenas uma mera nota de rodapé na história da humanidade. Algo que este Aqui compreende e se revela um belo filme sobre a vida, também se revelando um curioso e fascinante experimento narrativo.
Contando a história de uma casa e as famílias que ali viveram ao longo do tempo, Aqui é uma obra que remete A Árvore Da Vida (mas bem menos espiritual, meditativo e contemplativo) ao adotar uma narrativa que transcende o tempo presente, saltando entre diferentes períodos ao longo da História da humanidade enquanto acompanhamos a partir de uma câmera fixa em um determinado ponto no espaço que se revelará depois como o centro de uma casa, onde veremos muitas histórias. E o fato é que ao retratar diversas histórias ao longo do tempo, acompanhamos os altos e baixos da vida daquelas pessoas, suas diferentes perspectivas, suas angústias, medos, sonhos que nascem ou que são deixados de lado, famílias que vão crescendo, amores que nascem, florescem e persistem ao longo da vida, assim como o passado do universo, que vão desde a era dos dinossauros passando pela era glacial, chegando aos períodos históricos (que inclui os indígenas), e claro, a inevitabilidade da morte. Isso tudo, claro, reflete a história das nossas vidas, de como o tempo é implacável, onde piscamos e uma vida passa sem sequer percebermos, e que a nossa casa carrega um passado que desconhecemos, e que inevitavelmente, se tornará uma história para os próximos que vierem, e que continuarão muito depois de partirmos. Com isso, Aqui é um filme sobre a vida e as vivências que tivemos, das mais grandiosas às mais prosaicas, e da grande jornada que é a vida, o que permite que a narrativa não tenha um objetivo claro ao espectador (ou um arco narrativo identificável) já que, assim como a vida, as coisas vão acontecendo e por vezes, não temos a maturidade ou a compreensão necessária para entendermos as consequências de nossas escolhas para os outros, e que por vezes só vamos compreender mais tarde na vida. Mas isso jamais impede de tornar o filme envolvente, e embora algumas das histórias não ganhem um maior tempo de tela que merece (como a dos indígenas) ou mesmo fique abaixo de outras, a que ganha mais tempo de tela (e que é o centro narrativo do filme) é a de uma família que permanece anos por lá (iniciada com Paul Bettany e seguida por Tom Hanks na geração seguinte), e o fato é que todas elas servem ao tema do filme e de como, por vezes, ações do passado ecoam no presente ou mesmo, que sempre se repetem de alguma maneira ao longo das gerações.
Dirigido por Robert Zemeckis, Aqui se revela um filme perfeito para o diretor que, habituado em criar obras emocionantes, mas também criativas e geniais em suas escolhas técnicas (como não esquecer da sequência do espelho do maravilhoso Contato?), e com isso, o diretor aborda a partir de um ponto fixo da câmera as diversas ações que vão ocorrendo ao longo do tempo (algo que é inspirado na graphic novel que inspirou o filme) onde cria transições de cena através da montagem a partir de formas retangulares em pontos surpreendentes da tela (e ocasionalmente em conexões que amarram as histórias entre passado, presente e futuro). É claro que isso limita a ação, que é concentrada em um espaço relativamente único (e que acaba exigindo um esforço para retratar o máximo de ações e de história na frente da câmera), e há de se observar que o próprio diretor parece se esforçar para criar uma narrativa dinâmica a partir dessa limitação, se aproveitando para criar uma breve sequência de sonho ou o momento genial que utiliza um espelho para retratar a ação que vemos fora do ponto fixo da câmera, ou iniciando essas transições a partir do lado de fora até a casa preencher todo o quadro. Por outro lado, ele volta a repetir a estratégia de Forrest Gump – O Contador De Histórias ao utilizar a seleção das músicas como forma de demarcar a passagem do tempo, o que é muito interessante. Além disso, a equipe de design de produção faz um belíssimo trabalho ao retratar aquela casa através do tempo, mostrando também como a casa reflete as pessoas que ali vivem a partir da escolha da mobília, ou da época que vai transcorrendo. Enquanto isso, os efeitos especiais são excelentes e embora aqui e ali recaiam no artificial, são extremamente eficazes em seu uso mais discreto (com a óbvia exceção, claro, do rejuvenescimento digital de Tom Hanks e Robin Wright, que é frequentemente perfeito, embora ocasionalmente perceba-se o movimento labial mais artificial).
Contando ainda com ótimas atuações (Tom Hanks e Robin Wright – refazendo a parceria romântica de Forrest Gump – O Contador De Histórias – estão perfeitos, como de hábito, forjando uma relação em tela que sempre transborda verdade e Paul Bettany ocasionalmente flerta com a caricatura de pai severo, mas escapa por trazer ocasionalmente lampejos de humanidade a ele, como o momento que decide não beber mais), uma boa fotografia, uma trilha sonora discreta e eficaz, ótimos figurinos e design de som, uma maquiagem bastante eficiente (embora exagerem no envelhecimento de alguns personagens, e a maquiagem que envelhece os indígenas é fraquíssima, o que em conjunto com a plasticidade da fotografia digital, ressalta sua artificialidade), enfim, é um filme excelente e muito bonito.

 

Gênero: Drama
Duração: 104 Minutos
Classificação Indicativa: 12 Anos (Temas Sensíveis, Conteúdo Sexual e Drogas Lícitas)
Distribuição: Imagem Filmes
Direção: Robert Zemeckis
Elenco: Tom Hanks, Robin Wright, Paul Bettany, Kelly Reilly, Michelle Dockery, Nikki Amuka-Bird, Nicholas Pinnock, Ophelia Lovibond, David Fynn e Joel Oulette

 

Essas e outras críticas, você pode ler aqui:

https://criticasdefilmes1.wordpress.com/

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