Abrace sua estranheza

Narrativa

O fato de eu ser uma pessoa esquisita e demorar anos para perceber que isso era algo positivo foi um processo curioso. Acredito que cada pessoa nasce com alguma aptidão ou facilidade em criar e executar algo. Existem pessoas que são boas em exatas, algumas em humanas, outras em matérias que envolvem escrita e fala, assim como eu.

E o que separa pessoas conhecidas por suas personalidades ou por habilidades bem singulares das pessoas “normais” é apenas a exploração desse lado mais “esquisito”. Todo ser humano carrega um traço único e impossível de ser encontrado em outra pessoa. Pode ser a coisa mais pequena, quase imperceptível, mas existe. E se trabalhada da maneira certa, essa fração pode se transformar na arma secreta daquele indivíduo.

No meu caso, essa consciência veio devagar. Por muito tempo achei que ser esquisito era um peso, que o caminho certo seria suavizar quem eu era para não destoar tanto. Com os anos, percebi que o contrário era verdadeiro, quanto mais eu abraçava meu jeito estranho, mais sentido fazia a vida. E a moda teve um papel enorme nisso.

Eu comecei a me vestir do jeito que era o mais “eu” possível. Não era sobre tendência, era sobre expressão. A roupa deixou de ser só tecido e passou a ser manifesto. O armário deixou de ser um lugar onde eu buscava algo para passar despercebido, e virou quase um espelho do que eu sentia por dentro. Cada cor, cada modelagem, cada detalhe me ajudava a traduzir uma parte que eu já carregava, mas que não tinha coragem de mostrar. Era como se cada peça dissesse: “é assim que eu quero ser visto, é assim que eu sou de verdade”.

E quando entendi que a singularidade estava também no vestir, pensei: se já me apresento ao mundo assim, por que não levar esse raciocínio para tudo? Se eu já ousava na roupa, por que não ousar nas ideias, nas escolhas, nos caminhos que sigo? A partir daí, parei de pedir licença para existir do meu jeito. A moda me ensinou a sustentar a própria estranheza, a exibi-la como algo bonito e não como algo que deveria ser escondido.

E é justamente nesse ponto que Embriagado de Amor, dirigido por Paul Thomas Anderson, entra na minha história. Não como um motor da minha mudança, mas como um reflexo dela. Esse filme é um dos meus favoritos, está no topo da minha lista do Letterboxd, e isso não é à toa. Ele captura, com uma sensibilidade rara, o que significa ser um desajustado.

Adam Sandler, em uma das atuações mais intensas da carreira, interpreta Barry Egan. Um homem deslocado, nervoso, cheio de inseguranças, quase sufocado pela própria maneira de existir. Ele não se encaixa nas convenções sociais, não sabe se comunicar como os outros esperam, mas carrega dentro de si uma beleza escondida. Suas crises de explosão, sua dificuldade em expressar afeto, a pressão constante das irmãs que o diminuem, tudo isso compõe a figura de alguém que não encontra lugar no mundo.

Barry Egan de Amor à Loucura : r/fictionalpsychology

E o filme mostra que quando ele encontra Lena (Emily Watson), alguém que o vê e o aceita exatamente como é, esse mesmo “desajuste” se torna poesia. Lena não tenta corrigir Barry, não tenta adaptá-lo. Ela o acolhe na forma como ele já existe. E essa aceitação muda tudo.

A história de Barry me emociona porque, no fundo, fala sobre algo que aprendi na prática: quando você para de esconder suas estranhezas, elas deixam de ser ruído e passam a ser melodia. Quando alguém gosta de você exatamente pelo que você é, não apesar disso, mas por isso, todo o peso da esquisitice vira força.

O olhar de Paul Thomas Anderson é cirúrgico nesse sentido. Ele não faz de Barry uma caricatura. Pelo contrário, filma sua angústia, sua solidão e, ao mesmo tempo, sua capacidade de sentir com intensidade. A direção, com suas cores saturadas, enquadramentos quase claustrofóbicos e a trilha que mistura caos e lirismo, cria uma atmosfera que nos joga dentro da mente de alguém que não cabe em rótulos. É um cinema que não tenta explicar demais, mas que deixa você sentir o desconforto e, depois, o alívio.

Eu me reconheço nisso. A diferença é que, no meu caso, essa aceitação não veio por meio de um romance, mas pelo simples ato de me vestir como eu queria e sustentar quem eu era. Moda, para mim, virou uma forma de afirmar que minha estranheza não precisava de tradução. Ela podia ser vista, sentida, e até celebrada. E quando percebi isso, percebi também que a vida não é sobre se encaixar, mas sobre criar espaço.

Embriagado de Amor confirma essa ideia. Barry não muda para ser amado. Ele não deixa de ser esquisito, não vira “normal”. O amor de Lena não é condicionante, é libertador. E isso ecoa no que acredito, a singularidade não é uma barreira, mas uma assinatura. Cada traço que parecia “errado” é, na verdade, o que me torna único.

Embriagado de Amor | Netflix

Hoje eu vejo que ser esquisito é ter camadas. É não ser plano, não ser óbvio. É carregar pequenas arestas que, quando bem cuidadas, se tornam o que há de mais bonito em mim. 

Essa percepção não me deixou imune às críticas, claro. Sempre existe alguém que vai rir do jeito que você se veste, ou da forma como você se expressa. Mas a diferença é que hoje isso não me paralisa. Porque cada vez que eu sustento quem eu sou, sinto que essa coragem se torna uma espécie de filtro natural. As pessoas que ficam, ficam porque se conectam com a minha essência, e não com uma versão domesticada dela.

A moda me ensinou isso porque me obrigou a sustentar quem eu era diante do olhar dos outros. E, uma vez que me vesti como eu queria, não havia mais volta. Se eu tinha coragem de expor meu lado mais visível de forma tão sincera, por que não faria o mesmo com minha personalidade, meus pensamentos e meus sentimentos?

O filme, então, funciona como um lembrete, sempre vai haver alguém que enxergue beleza naquilo que os outros chamam de estranho. Pode ser um amigo, um par romântico ou até mesmo você mesmo diante do espelho. O essencial é não esconder. Porque quando a gente assume a própria esquisitice, abre espaço para conexões muito mais verdadeiras.

Ser esquisito, no fim das contas, é o que me impede de ser genérico. É o que me protege da indiferença. É o que me faz lembrar que cada gesto, cada silêncio, cada escolha de roupa, de palavra ou de caminho, constrói um mosaico que só eu posso ter. E isso, para mim, é o que significa estar no meu auge de singularidade.

4 filmes de comédia romântica que provavelmente você ainda não viu

Se eu tivesse continuado tentando caber, provavelmente seria invisível. Mas ao abraçar o que tenho de estranho, passei a ser visível de uma forma que nenhuma convenção poderia oferecer. E, como Barry em Embriagado de Amor, descobri que não existe nada mais bonito do que ser aceito exatamente assim.

E essa é a mensagem que levo comigo: ser esquisito não é um defeito, é uma afirmação de existência. É a prova de que cada um de nós carrega um detalhe inconfundível. E se a vida nos dá a chance de mostrar isso ao mundo, a pior coisa que podemos fazer é desperdiçar tentando parecer iguais. A esquisitice, quando abraçada, deixa de ser sombra e vira luz.

Comentários 3

H
Heitor Leal Machado19 de setembro de 2025
Amo demais! Estava no seleto grupo de 12 filmes no meu álbum do falecido orkut hahahah
M
Murilo15 de setembro de 2025
Brilhante
G
Gabriel Melchiori15 de setembro de 2025
Caraca que correlação boa e sincera. Um de seus textos mais autênticos

Deste autor