Uma Vida
Críticas GeraisAo término da sessão de Uma Vida – A História de Nicholas Winton, era evidente que grande parte do público havia se emocionado. As lágrimas discretas e os soluços abafados se espalhavam pela sala, preenchendo o espaço de um silêncio comovido.
E não por acaso. Com Anthony Hopkins vivendo o papel do britânico que ajudou a salvar 669 crianças nos primeiros anos da Segunda Guerra Mundial, o longa se encaixa de maneira quase automática no subgênero dos “filmes sobre o Holocausto”, desses que despertam lágrimas com facilidade sem precisar recorrer a grandes artifícios. No entanto, em Uma Vida, a força incontestável da história real de Nicholas Winton acaba levando a uma certa zona de conforto por parte dos realizadores.
Esse aspecto fica claro na condução de James Hawes, vindo de trabalhos televisivos, que se limita a organizar os acontecimentos de forma linear e burocrática. Em vez de uma construção narrativa que amplifique a dimensão daquilo que é contado, o diretor aposta em longos flashbacks que lembram dramatizações de documentários, intercalados com o presente em que Hopkins, já idoso, decide revelar ao mundo sua participação naqueles acontecimentos que antecederam a guerra.
O filme, contudo, ganha densidade sempre que Hopkins surge em cena. Não apenas na rápida, mas simpática aparição de Jonathan Pryce (com quem contracenou em Dois Papas, de Fernando Meirelles), mas principalmente porque Hopkins entrega um Nicholas Winton mais multifacetado do que o roteiro prevê. É do ator, por exemplo, que nasce a ambiguidade entre ser reconhecido como “herói” e carregar a dor das vidas que não conseguiu salvar. Esse olhar contido do intérprete gera uma sensação dupla: de um lado, a previsível admiração pelo talento de Hopkins; de outro, a percepção incômoda de que o filme depende demais da presença magnética de seu protagonista para compensar a falta de ousadia no restante da produção.
Há também outros acertos — Helena Bonham Carter, como sempre, é uma presença marcante —, mas a sensação final é de que Uma Vida emociona muito mais pela força intrínseca da história do que pela maneira como ela é transportada para a tela. Inevitável, assim, a comparação com A Lista de Schindler: também centrado em um homem que salva vidas, mas conduzido dentro de um arco narrativo muito mais arrebatador e transformador. No fim das contas, há uma razão clara pela qual Spielberg é, afinal, Spielberg.

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