O fracasso é uma sombra
Críticas GeraisExistem duas dobradinhas perfeitas para um final de semana qualquer: “The Room”/“Artista do Desastre” e “Plano 9 do Espaço Sideral”/”Ed Wood”. Digo ‘perfeitas’ porque são filmes que coexistem de forma quase retroativa. Um leva ao outro. Um é a obra, o outro é a história do autor. Ambos são pautados em sua maior virtude: o fracasso. A primeira sessão dupla, por exemplo, é bastante conhecida. “The Room” (2003), dirigido/escrito/produzido e estrelado por Tommy Wiseau, ganhou notoriedade pelo completo surto de ego trip do idealizador, resultando em um dos que muitos consideram como ‘o pior filme de todos os tempos'. São muitos memes envolvendo esse longa há anos, destacando as atuações bizarras de todos os envolvidos, mas principalmente de Wiseau. Esta história é tão notória e intrigante que acabou virando filme em 2017. “Artista do Desastre” foi dirigido e atuado por James Franco, e acabou agradando a crítica pela competência ao abordar esta passagem interessante (para não dizer tenebrosa) da história do Cinema, mostrando os bastidores do filme de 2003. No entanto, muito antes disso, havia outro cineasta peculiar que já havia sido alvo de muita curiosidade do público por conta de seus (de)feitos cinematográficos: Edward Davis Wood, Jr.

O Pior Diretor de Todos os Tempos!
Seguindo com a outra sessão dupla que mencionei, temos o que, para mim, é o melhor filme de Tim Burton: “Ed Wood” (1994). Burton é um diretor notoriamente emblemático, apresentando uma legião de fãs ao redor do mundo, devido ao estilo irreverente gótico clássico que o fez chegar ao estrelato. Particularmente, gosto bastante de muitos de seus filmes, mesmo em diversas ocasiões preferindo mais a estética do que, necessariamente, a direção ou roteiro. Mas aqui, com “Ed Wood”, sinto que Burton estava em seu auge ao retratar a história do infame “pior diretor de todos os tempos” de forma tocante e visualmente brilhante, olhando para o fracasso com empatia e, de certo modo, até apreço. A montagem, o som, o design de produção, o figurino, a maquiagem, até as atuações. Tudo nos transporta à uma atmosfera bem “lado B” de Hollywood dos anos 50. Uma sensação de que estamos vivendo aquela época, acompanhando de perto a tentativa de Ed Wood em se destacar, de alguma forma, na cidade dos sonhos. Aqui, acompanhamos o protagonista (interpretado por Johnny Depp) produzindo seus primeiros filmes, até chegar em seu auge (um auge reverso, sei lá…) com seu longa sci-fi “Plano 9 do Espaço Sideral”.

Dito tudo isto, pensei em destacar “Plano 9…” (1959), de Ed Wood, como um ‘filme B do coração’, porque acumulo um fascínio em tudo que permeia esta história há um tempo. Pessoalmente, quando fui prestigiar o tal “The Room” pela primeira vez, cometi aquilo que consideramos uma heresia no meio cinéfilo: assisti parcelado. Devo ter terminado em três dias. A última parcela, inclusive, foi ‘paga’ com raiva… aquilo estava cansativo já. Acabo me divertindo bastante com os memes, mas não consigo considerar esse como um “filme tão ruim que dá a volta e fica bom”. Porém, em “Plano 9” já consigo vislumbrar essa volta. Talvez, também, seja pelo meu carinho com o longa do Tim Burton. Contudo, uma coisa é certa: o filme é divertido! Dá para dar umas boas risadas.
The Big 3: Dracula + Lobo + Vampira

Apenas para termos de contexto, Ed Wood - tal qual muitos cineastas - apresenta sua “panelinha” em muitos de seus longas, principalmente nos primeiros. Dentre a trupe do diretor, o nome mais célebre era de Bela Lugosi, o eterno Drácula do clássico de 1931. Lugosi, à época que conheceu Wood, estava já em fim de carreira, em uma fase atormentada pelo abuso de substâncias químicas. Ninguém sabia do ator há alguns anos, fazendo com que ele já estivesse entrando naquele trágico time de celebridades do “Esse aí já não morreu?”. Até que seus caminhos se cruzaram com o de um jovem cineasta, com muita força de vontade para realizar seu primeiro filme “Glen ou Glenda?” (1953). Foi assim, então, que nasceu uma grande parceria e amizade que perdurou até o fim da vida do ator experiente e decadente. Além do príncipe das trevas, Wood também sempre contava frequentemente com suas companheiras (dependendo da época) Dolores Fuller e Norma McCarty, juntamente com seus amigos Lyle Talbot, Paul Marco, Bunny Breckindge, Loretta King, entre outros. Ademais, um outro nome, bastante emblemático e excêntrico de sua gangue, é de Tor Johnson (também conhecido como Lobo), um lutador sueco de wrestling que chamava atenção pelo seu porte físico bruto e grandalhão. Por fim, é preciso mencionar a entrada de Maila Nurmi para a gangue. Nurmi era uma apresentadora de um programa de TV sobre filmes B de terror, caracterizada como sua personagem Vampira (muito.. muito antes de Elvira). Wood era um telespectador assíduo do programa e queria incessantemente Nurmi em seu novo filme. Certamente, havia total falta de técnica e conhecimento em todos os envolvidos ali. A maioria estava, apenas, prestando serviços à Wood, e outros, de fato, tornaram-se grandes amigos de sua vida. Mas, creio que seja esse sentimento de ‘guerrilha’ que acaba me comovendo mais em todo esse cenário.
Plano 9 e suas 999 gambiarras
Sucintamente, a sinopse do filme é basicamente: alienígenas invadem a Terra, com objetivo de impedir os terráqueos de destruírem todo o Universo através de uma substância chamada “solaranita”, que nem sequer foi descoberta ainda. Mas apenas o fato de os seres humanos estarem, recentemente, criando bombas atômicas e travando guerras inacabadas, já é o suficiente para o temor dos invasores impulsionar tal interferência. Por conta disso, iniciam o tal “Plano 9” cujo objetivo é ressuscitar os mortos, criando uma legião de zumbis para conquistar a Terra através do medo, impedindo, assim, a destruição da galáxia (escrevendo assim fica mais engraçado ainda).

O fato é que o filme foi lançado oficialmente apenas em 1959, porém foi gravado em um pequeno espaço de tempo em 1957. Anteriormente, tinha outro nome que, em tradução livre, era algo como “Ladrões de Túmulo do Espaço Sideral”. Porém, Wood havia conseguido firmar acordo de produção com alguns membros da Igreja Batista, fazendo com que os investidores barrassem tal título alegando blasfêmia. Além disso, outra questão importante é que o grande super trunfo de Wood era Lugosi. Entretanto, o eterno Drácula faleceu em 1956, deixando algumas tomadas inacabadas fora de contexto que o diretor havia rodado com o ator para outro projeto. Apenas isto foi o suficiente para o longa ser conhecido como “o último filme de Bela Lugosi”. Uma pausa para destacar a cena em que Lugosi está saindo de sua casa, com um semblante vazio e melancólico, como quem sabe que seu fim está próximo. Não há mais nada a se fazer ali. Tal cena, inclusive, foi retratada no filme de 1994, com muita delicadeza em um momento bastante intimista de Lugosi, interpretado por Martin Landau (do qual conquistou um Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por conta desse papel), onde Wood, de Depp, percebe tal sutileza e beleza naquilo e começa a gravar. De modo perspicaz, o diretor (o real, agora) encaixa esta cena no início do filme, narrando que era a última vez que o personagem estava saindo de casa, pois logo em seguida iria morrer. Para “manter a continuidade” (com muitas aspas aqui), Wood chamou o fisioterapeuta de sua segunda esposa Kathy O’Hara, Tom Mason, para fazer as outras cenas de Lugosi. O fato engraçado aqui é que para disfarçar, Wood pediu para que Mason escondesse seu rosto por trás do capuz. Isso rende momentos interessantes, já que o personagem de Lugosi, o “homem velho e viúvo”, é um dos zumbis criados pelos extraterrestres. Então, ora é o Lugosi andando no meio do campo de dia, ora é Mason tampando sua face à noite. Tudo isso numa mesma sequência.

Seguramente, é preciso admitir que Wood entregava rápido! - Entregava de qualquer jeito? Sim! - Mas havia uma paixão ali, um tanto quanto ingênua até. É nítido que as cenas que foram para o corte final foram os primeiros takes que deram certo. Além das péssimas atuações de todos do elenco, temos os cenários precários de baixo orçamento que garantem boas gargalhadas. A começar pelo cemitério, onde passa boa parte do filme. Os túmulos, feitos de papelão, quase caindo enquanto os personagens se movimentam, além de bonecões jogados nas covas. Ouro puro! Outro local que merece destaque é a cabine dos pilotos do avião, onde os próprios nem sequer estão segurando os volantes (também de papelão), quanto mais pilotando. Além do fato de, ao centro, notarmos a cortina de box de banheiro, por onde entra a aeromoça. Sem contar que esta cena, em específico, é uma atuação pior que a outra, e a montagem não ajuda. Não tem uma lógica de continuidade. No meio da conversa entre a aeromoça e o co-piloto há um corte, onde se apresentam em diferentes posições, depois voltam como estavam anteriormente, abruptamente. Fora que, bem nesse momento, os personagens avistam os discos voadores pela primeira vez e não esbanjam nenhuma emoção fora do comum, dada tal façanha que estão presenciando. Os discos voadores, por si só, são outro caso à parte. É de conhecimento que foram usados discos voadores de brinquedo que vendiam na época, mas se falassem que eram tampas de panela seria mais fácil de acreditar. Mas a melhor gambiarra mesmo fica por conta das cordas que seguram essas naves espaciais, fazendo com que seus movimentos fiquem hilários (sério, é muito engraçado ver essas panelas balançando).

Há de se comentar que, supostamente, era para o protagonista ser o tal piloto do avião, que tem uma sub-trama de estar preocupado com sua esposa, devido ao aparecimento dos zumbis no cemitério próximo à sua casa. Mas a real é que ninguém se importa com esse piloto! Até porque, além da atuação não ajudar, o roteiro de Wood o condena sozinho. Há um momento em que o piloto desabafa com sua mulher a respeito do disco voador que descobriu mais cedo. Ele menciona que a nave parecia um “grande charuto”. Sendo que a toda poderosa nave se parecia muito mais com um prato comprado às pressas no camelô da esquina do que qualquer tipo de cigarro e afins. E isto é maravilhoso, porque mostra o quanto Wood não estava se importando muito com a imersão do espectador na obra, mas sim com a sua força de vontade em rodar o filme.

O grande carisma mesmo está no elenco de apoio, principalmente os outros dois zumbis: o Lobo e a Vampira. A imagem da Vampira caminhando lentamente como uma zumbi é (não ironicamente) bem emblemática, como se fosse um símbolo dos filmes trash. Além disso, uma das cenas mais engraçadas do filme (daquelas que você solta uma risada alto), é quando o personagem do Lobo sai da cova, agora como morto-vivo, com muita dificuldade de se levantar e subir à superfície, bem aos trancos e barrancos mesmo. Isso é maravilhoso, sinceramente. Um outro destaque é Criswell, basicamente uma espécie de ‘Márcia Sensitiva’ da época, um vidente que aparecia na mídia falando sobre o fim do mundo e coisas do tipo. Aqui, ele aparece como ele mesmo, apenas no início e no final do filme, claramente lendo um monólogo prolixo sobre o futuro e o desconhecido. Não leva à lugar nenhum, mas dá um charme a mais. Já os antagonistas do longa, os - supostamente - alienígenas, dão um show de tosquice. O figurino parecendo um pijama e as armas de plástico não funcionando (tem uma cena muito divertida em que a pistola deles não está controlando os zumbis como deveriam, fazendo com que o general ET, chamado Eros, fique desesperado ao ser atacado pelo personagem do Lobo, parecendo até que o ator ficou preocupado de verdade mesmo). Outro personagem secundário que merece destaque é o policial interpretado por Paul Marco, pelo simples e irônico motivo dele se parecer muito com o Boyle, de “Brooklyn 99” (eu não consigo ver isso de outra forma mais…fico esperando o Peralta fazer uma participação especial também).




O fracasso é uma sombra, e isto assombra…
Dentre tantas linhas de diálogos questionáveis, há uma em que destaco onde - pode ser ruim, de fato, mas - dá para tirar uma grande lição disso tudo. O general Eros conversa com sua parceira de missão, após relatarem um parecer acerca do Plano 9 com seu comandante. Durante a cena, o general reflete: “é uma coisa interessante a se considerar o fato de que as pessoas da Terra, que podem pensar, estão tão assustadas com os que não podem pensar, os mortos”. É uma frase ingênua, assim como a forma em que Wood escreve e dirige seu filme, mas pensando no ponto de vista do desastre, que permeia essa obra, é algo que nos faz ponderar: o fracasso é uma sombra! A vida toda percorremos nossos caminhos com a sombra do fracasso nos perseguindo o tempo todo, causando um medo interminável em nós. Quieto e silencioso como uma sombra (ou uma pessoa morta), o fracasso - como conceito, não como algo palpável - está sempre presente. Morremos e temos a certeza de que, dentre todos os sonhos e objetivos que um dia almejamos alcançar, só a minoria será conquistada, em sua plenitude. O resto será fracasso, e é justamente isso que, de certo modo, impulsiona-nos à uma nova missão, redenção e desejado triunfo.

É muito frustrante pensar que artistas geniais não obtiveram sucesso em vida, atingindo-o postumamente. Um dos casos mais notórios é do icônico pintor pós-impressionista Vincent Van Gogh. Mas, e o outro lado? E o lado dos sem talento? Dos fracassados em vida pelo fato da obra realmente não ser boa? E quando fazem sucesso, de forma negativa e contrária ao objetivo principal? Há diminuição do valor da obra nessas situações? A paixão não é o bastante para se juntar ao ‘clubinho’ dos privilegiados? É preciso aceitação para haver triunfo? É preciso triunfo para ter aceitação? No longa de Tim Burton, há um momento - quase que onírico - em que Wood se encontra com o grande Orson Welles em um bar, como se fosse uma energia cósmica surreal de um mentor passando seu último ensinamento para o aprendiz. Wood estava em um momento desiludido com os rumos que sua vida estava tomando, e falar com seu ídolo naquele momento era necessário para servir como um último impulso e força para continuar.

Obviamente, Wood nunca foi um Welles, mesmo escrevendo, produzindo, dirigindo e estrelando seus próprios filmes. Mas não pode omitir o fato de Wood ser apaixonado pelo Cinema, à sua maneira. ‘Um take só já deu certo? Vamos para a próxima! Muitos erros de continuidade? Não tem problema, está em preto e branco mesmo, vamos para a próxima!’ Aprecie ou não, Wood deixou seu nome na história de alguma forma. Mesmo não tendo seu reconhecimento em vida e sofrendo drasticamente com o alcoolismo, continuou fazendo seus filmes até sua morte em 1978. Outro fato interessante de sua vida que vale a pena ser comentado é que Wood foi, sem dúvidas, um pioneiro queer. Adepto do cross-dressing, seu longa “Glen ou Glenda?” - querendo ou não - é um dos primeiros exemplares do Cinema com representação LGBTQIA+, soando como quase uma autobiografia, relatando seu hábito de se vestir com roupas femininas.

Por fim, concluímos que Ed Wood foi um cineasta muito intrigante, e suas obras estão aí para serem apreciadas da forma que o espectador bem quiser - seja com admiração ou como forma de comédia involuntária. “Plano 9 do Espaço Sideral” é um dos pais dos filmes B, um trash tão ruim que fica bom, e está em um lugar especial no meu coração ao me servir na forma de um abraço, daqueles que não são fortes, quentes ou apertados, mas sim necessários, principalmente nos momentos em que tento conviver e aprender a lidar com minha própria sombra.

















Comentários 6