Annette: o espetáculo falseado e a subversão de Leos Carax
Críticas GeraisHá um tempo desenvolvi uma análise crítica de Annette (2021) para uma matéria na Universidade. Acho que seria interessante ela ser meu primeiro “post” por aqui porque resume bem um dos sentimentos mais belos a se deparar com um filme: o encanto. Enfim, aqui está:
Contemporaneamente, o cinema, principalmente o hollywoodiano, alinha-se a uma padronização (ou reverência ao clássico) nas suas narrativas e linguagens, vide exemplos como La La Land - que trabalha o gênero musical seguindo majoritariamente um molde trivial, isto é, cria-se um universo imagético, mas crível, evocando um espetáculo “natural” em frente ao espectador. Annette, por outro lado, assume sua própria natureza cinematográfica e induz o espectador a participar do espetáculo, de maneira a ressignificar a narrativa e a mise-en-scène. É um musical pautado no cinema da dúvida, da subversão e do absurdismo, criando por meio da linguagem uma ideia que pode ser chamada de espetáculo falseado.
A ideia de espetáculo falseado surge justamente da maneira como Carax clarifica essa aproximação proposital do espectador, fazendo-o nunca esquecer que tudo o que é mostrado é um filme, é uma representação - ainda que espetacularizada. Já na primeira cena, o filme, juntamente ao diretor - também em cena - dão início metalinguisticamente à obra, ordenando o público a respirar e prestar atenção porque o espetáculo estava para começar. Essa ideia é seguida em vários momentos, Carax e Nelly Quettier (montador) trabalham as montagens sobrepostas, no intercalar de situações distintas no tempo narrativo ou então distintas no seu realismo e imaginação, criando essa inquietação que corrobora na “confusão” entre espetáculo e falsidade. Isso é visto fortemente, também, nas cenas em que há uma troca de cenário. Como é visto quando Ann, ao fim de sua apresentação de ópera, se retira através das cortinas abertas no palco que revelam um caminho para a floresta, eliminando qualquer ideia de continuidade e espacialidade.
Grande parte dessa análise se relaciona com a teoria de “Opacidade e Transparência”, posta por Ismail Xavier em seu livro O Discurso Cinematográfico, da diferença entre conseguir observar os dispositivos e as linguagens técnicas que formam o plano que é visto (Opacidade) e ver-se inserido a tal ponto que não se distingue mais filme e realidade, sendo completamente absorvido pela narrativa (Transparência). Como já dito, Carax faz questão de aproximar o espectador da obra, por meio do afastamento proposital, deixando clara a falsidade do espetáculo que está sendo criado: a filha Annette.
É certo que a espetacularização acompanha o filme como um todo, mas a maior magnitude dessa representação é na filha do casal, que, de forma evidente, é uma boneca, mas uma boneca capaz de cantar, capaz de ser o seu próprio espetáculo. No momento que Henry se depara com a capacidade da filha (de forma enigmática), vemos nos olhos a intenção de explorar a filha, espetacularizando-a. Mas não apenas por ele, já que é entendido que Annette só tem essa capacidade graças a Ann, naquele momento já morta, que disse à Henry que iria continuar em sua vida através de Annette - o que de certa forma também revela essa exploração.
Portanto são ambos os personagens, progenitores da sua falsa criação (boneca), manipulando-a em prol do espetáculo, relacionando o arco narrativo com a opacidade do filme, atribuindo ao espectador o papel de ressignificar a então falsa filha em uma boneca verdadeira (com humanidade), que finalmente ganha voz e consciência para acusar o pai dos crimes que cometeu durante os arcos passados. Assim, caminhamos a um amálgama dessas duas estruturas, opacas e transparentes, interpretando falsos papéis assim como no filme. Nos envolvendo, mas não assumindo a verdade.
O que Annette faz é justamente endossar sua posição subversiva a todo custo. É óbvio que o espectador pode entender isso como um afastamento puro e não proposital. No entanto, é nítido como Carax e os Sparks Brothers (roteiristas) entendem isso como sua virtude formal: os atos musicais, alinhados às letras das canções, trazem um aspecto quase de negação à plasticidade e à estética, trabalhando a exposição. Os personagens estão na maioria das vezes em cenários crus ou montados de forma engessada, cantando basicamente descrições de acontecimentos e sentimentos. E talvez seja por isso que, quando finalmente é visto em cena uma mera espetacularização, em tese, fidedigna aos musicais, o incômodo é criado e a ironia e a subversão são identificadas. As canções de Annette, os stand-ups de Henry, as óperas de Ann: todo esse espetáculo “velado” escancara a falsidade conflitante com os arcos expositivos das outras passagens musicais (até nos momentos em que há leves quebras de quarta parede).
É curioso como Carax atrai o espectador ao filme por meio desse próprio afastamento. O diretor trabalhou ideia semelhante no seu último filme, Holy Motors (2012), mas de maneira muito mais narrativa. O protagonista Mr. Oscar (Denis Lavant), introduzido a uma normalidade às avessas, se vê na posição de interpretar, a cada dia, uma pessoa diferente, assumindo a caracterização e a relação de “atuação” de forma 100% narrativa, e não metalinguística. Já em Annette, a mesma ideia é passada para superfície da tela, clamando para, agora, o espectador atuar junto ao filme e expressar a humanidade dos “falsos personagens”, ressignificando-os. Se, em Holy Motors, Mr. Oscar encena sua própria vida revelando a transparência do filme, em Annette vemos a encenação dos personagens moldados nos espetáculos (comédia, música, ópera, teatro), mas representados de forma falseada na sua linguagem. Um exemplo disso é como Henry transita desde um personagem narrativo e participante da história a um personagem que serve de “peão” de Carax para estreitar, expositivamente, as músicas e os sentimentos.
Ao passo que o filme caminha para sua conclusão, vemos que o sentimento que fica é de uma tragédia anunciada. Passando pela interessante relação com a comédia de Henry, que brinca que “matou” sua esposa e seu público, mas que revela suas intenções na narrativa. Assim como Ann, que, mesmo morta, usa Annette para se vingar orgulhosamente de Henry (sua morte já é a sua tragédia). Assim como Carax, que se coloca literalmente em cena no começo da obra, do mesmo modo que ao final do filme é criado um entendimento de que o próprio personagem de Adam Driver é transformado fisicamente no diretor (uma relação também ao “atuar” dos espectadores, mas agora, do próprio diretor).
Tragicamente, as decorrências narrativas e formais se entrelaçam ao final da obra, no amálgama citado anteriormente, entre a opacidade e a transparência, que bate o martelo sobre as intenções do diretor aos seus personagens. Henry e Annette são colocados frente a frente quando a filha visita o pai que está preso, culminando no dueto final entre eles e revelando Annette, antes boneca e agora pessoa. Se antes a boneca Annette era a personagem ironicamente mais humana, agora ela ganha sua forma verdadeira e se liberta do aprisionamento causado por Henry e Ann. Essa cena final estabelece como Carax inverte todas as padronizações que ele mesmo cria durante o filme e que já são subversivas ao, digamos, espetáculo verdadeiro e transparente. Enquanto nas cenas anteriores Carax encena o espetáculo falseado por meio das encenações e principalmente da idealização da boneca , na cena final, além de Annette ganhar vida, a encenação, o vigor musical e até a magnitude dos planos são reduzidos a algo formalmente sutil, abrindo espaço para o dueto, que se fortifica da maneira mais grandiosa que o filme poderia causar, mas de modo a concentrar sua excentricidade na humanidade de Annette e na tragédia de Henry. A falsidade finalmente dá lugar a verdade, mas uma verdade nada conclusiva.
O filme se encerra com diversos protagonistas. Um deles, o espectador, que, no paralelo da criação narrativa de Annette, é quem realmente dá oportunidade à personagem de libertar-se. Assim, Carax consegue ir, voltar e ir novamente na mesma ideia de estreitar as relações daquilo que é falso, daquilo que é verdade e daquilo que é uma mera espetacularização, de ambos os lados. A crítica é pertinente e a jornada mais ainda. Se Annette é um espetáculo falseado, o resultado que temos dessa experiência é o abismo encontrado fora da espetacularização e da transparência enganosa, e como lidamos com ele na realidade, assim como Annette.




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