O Que Jaz no Fundo do Poço
NarrativaHoje o dia começou triste para mim.
De manhã, recebi a notícia de que não tinha entrado para a faculdade que eu tanto queria e, de tarde, minha namorada, Ana Lúcia, terminou comigo. Fiquei arrasado, não sabia como reagir a tudo o que estava acontecendo, então fui para um lugar escondido chorar em silêncio. É fácil achar um lugar para chorar escondido aqui. Essa cidade onde moro não tem mais do que quinze mil habitantes. É o tipo de lugar onde as pessoas esperam pelo carro de som passar anunciando acontecimentos: nascimento, casamento… e morte.
Aqui no interior da Bahia, as ruas estreitas, algumas ainda de pedra, parecem não ter mudado em mais de um século. O ar tem cheiro de café torrado misturado com terra vermelha, e todo mundo conhece todo mundo. No centro, cercada por casas pequenas e bancos de madeira, está a praça — pequena, modesta, mas viva durante o dia — porém com um bom ponto onde eu conseguia me esconder para lacrimejar. No meio dela, repousa um poço feito de pedras irregulares, cobertas de musgo e rachaduras. Deixado como atração turística para os entusiastas de arquitetura antiga. O balde de ferro, enferrujado e suspenso por uma corda grossa e gasta, range quando o vento sopra. Sem sombra de dúvidas, é algo vindo diretamente de uma cidade colonial.
De dia, o poço parece inofensivo. Crianças brincam perto, vendedores de pipoca estacionam carrinhos ao lado e turistas tiram fotos. Mas toda criança da cidade cresce ouvindo a mesma advertência:
"Quando anoitecer, não chegue perto do poço."
Essa advertência veio depois de várias crianças sumirem à noite e serem encontradas, no dia seguinte, afogadas no poço. Acho um milagre ele ainda estar ali, sem tampa nem nada. Porém, minha avó uma vez me contou que essa advertência na verdade tem raízes numa lenda tão antiga quanto o próprio lugar.
Ela me contou que, nos primeiros anos da fundação da cidade, quando a região ainda era apenas mato e casas esparsas, vivia aqui uma mulher chamada Vitória. Ela morava sozinha numa casa de madeira dentro do mato e era conhecida por preparar chás para quem passava por lá. Mas também havia relatos de homens e mulheres encontrados mortos perto de onde ela morava, de homens que enlouqueciam após tomarem o chá que ela preparava e de gritos de crianças vindos da casa nos dias de lua cheia — sendo que ela não tinha nenhuma criança.
Quando o bebê de um fazendeiro rico desapareceu no berço, a pequena população suspeitou dela e correu até a sua casa. Chegando lá, encontraram o bebê sem vida e ensanguentado no colo dela. Ela havia sacrificado a criança e aparentemente bebido de seu sangue. Não foi preciso muito para acusarem-na de ser uma bruxa. Minha avó diz que, quando anoiteceu, um grupo de fazendeiros a arrastou até o lugar onde hoje é essa praça.
Amarraram pedras aos seus pés e a jogaram dentro do poço, para que tivesse uma morte agonizante pela água entrando nos pulmões.
Na semana seguinte ao afogamento dela, a água do poço ficou totalmente escura. Ninguém conseguiu limpá-la. Desde então, toda geração tem suas histórias sobre gente que viu algo lá dentro.
Eu cresci ouvindo essa história da minha avó, sempre pensando que era apenas invenção para afastar as crianças do poço e evitar afogamentos. Tudo isso mudou na noite em que precisei atravessar a praça para ir para casa. Eu havia perdido a noção do tempo enquanto estava na praça chorando e, quando me toquei, já passava das nove horas da noite. Era um domingo frio de agosto. O ar estava denso, não havia nenhum barulho e algo parecia errado. A praça parecia maior e mais vazia. O silêncio era tão profundo que eu ouvia o eco dos meus próprios passos. A luz dos postes parecia mais fraca, deixando sombras longas e distorcidas no chão.
O poço estava lá, iluminado por um único poste que parecia lutar para manter-se aceso. E havia um cheiro no ar: umidade, musgo… e algo metálico, parecido com sangue.
Tentei atravessar rápido, mas meus olhos foram puxados para a borda. A pedra estava úmida, brilhando sob a luz amarelada. O balde estava imóvel, apesar do vento forte. Não resisti à curiosidade e me aproximei, olhando para dentro. A água era escura, como se absorvesse toda a luz. Então, algo começou a surgir no fundo: um rosto pálido, quase translúcido. Os cabelos longos e negros flutuavam submersos. Os olhos eram fundos, mas brilhavam com uma cor amarelada. Ela falou meu nome. A voz veio não só do poço, mas de todos os lados — atrás de mim, sobre meu ombro, dentro da minha cabeça.
O rosto subia. A água também. Mas a subida não fazia barulho. Vi por um instante que, dentro da água, havia braços e pernas que não eram dela, mas de outros corpos sem vida.
Caí de costas para trás, então senti que algo frio tocou meu tornozelo. Era como uma mão magra, ossuda e molhada, apertando minha pele. Eu estava caído, de costas. Aquela figura pálida e desumana começou a rastejar para fora do poço, envolvendo meus pés. Eu conseguia vê-la se contorcendo, quebrando-se em ângulos impossíveis. O cheiro agora era de madeira podre misturada com sangue coagulado.
A voz voltou, mais próxima, sussurrando no meu ouvido:
"Não há salvação."
O puxão foi forte demais. O mundo girou e a borda sumiu. A última coisa que vi antes da escuridão total foi o rosto dela, próximo demais, abrindo um sorriso macabro enquanto eu não conseguia respirar.
Acordei na minha cama, todo molhado de suor e com o coração acelerado. Por um instante, pensei que fosse um pesadelo. Mas estava sentindo dor. Quando fui checar, meu tornozelo tinha marcas arroxeadas, como se algo tivesse apertado com força. Meu coração disparou ainda mais quando um chiado ecoou do meu guarda-roupa. As portas começaram a se abrir lentamente, por conta própria, emitindo sons metálicos que ressoavam pelo quarto.
Eu já não tinha certeza se estava realmente acordado ou num pesadelo. Decidi me aproximar, hesitante, com o coração pulsando acelerado. O silêncio se acumulava e se tornava sufocante. Comecei a olhar dentro do guarda-roupa — nada além de roupas. Por um momento, senti-me aliviado. Mas então algo pingou na minha cabeça. Olhei para cima rapidamente, e lá estava ela: aquela figura grotesca, agachada ali, com o rosto distorcido, olhos arrepiantes e boca escancarada, irradiando um choque sobre mim que me deixou petrificado, sem reação.
Ela então lançou-se sobre mim.
Acordei novamente, desta vez dentro da água. Meus braços golpeavam o vazio líquido, mas cada movimento me afundava ainda mais. O frio cortava minha pele, penetrando até os ossos, e o som ao redor se tornava abafado, distante. Eu só sentia o meu próprio coração pulsando nos ouvidos.
Meus pulmões queimavam, implorando por oxigênio. Consegui olhar para baixo: a mão pálida da bruxa estava me arrastando cada vez mais fundo, junto aos outros corpos que eu havia visto antes. A luz que irradiava de cima, antes tão próxima, agora se dissipava em listras fracas e distorcidas.
A força nos meus músculos se esvaía, substituída por uma estranha fraqueza. Meus dedos se abriram, impotentes. Minha mente gritava para lutar, para escapar da bruxa, mas meu corpo não conseguia. A dor que sentia dentro de mim enquanto a água entrava era indescritível.
E, no último instante antes de tudo se apagar, fiquei pensando em como seria a reação de Ana Lúcia ao ver anunciarem minha morte no carro de som. Só conseguia pensar nela nesse último instante antes de tudo ficar escuro. Não pensava mais em tentar fugir daquele destino cruel, pois eu já sabia, como a bruxa havia me dito: não há esperança.




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