O quarto trancado

Narrativa

Eu me mudei por impulso, como faço com tudo que me perturba demais. O apartamento era antigo, mal-iluminado, mas confortável. Tinha algo acolhedor naquela sala com paredes desgastadas, naquela cozinha apertada com azulejos fora de moda. As janelas pequenas deixavam entrar uma luz pálida, amarelada, como se o tempo ali corresse em outra velocidade. O corretor disse que era o último disponível no prédio. "Você teve sorte," ele afirmou, com um sorriso ensaiado e cansado. Eu não pensei muito sobre isso. Eu queria recomeçar. Eu precisava desaparecer por um tempo de mim mesma.

 

Mas havia aquele quarto no fundo do corredor.

A porta estava fechada, trancada por duas trancas robustas e um cadeado pesado. Diferente do resto do apartamento, ela parecia nova, madeira escura, sem poeira, sem marcas do tempo. O proprietário, um senhor chamado Alberto, tinha sido firme:

 

"Esse quarto não pode ser aberto."

"Por quê?"

"Você mesma pediu assim."

"Desculpe?"

"Quero dizer... quem morava aqui antes de você pediu."

"E por que não pode ser aberto agora?"

Ele ficou em silêncio, os olhos desviando dos meus.

"Melhor assim. É só um cômodo vazio."

Aquilo ficou na minha cabeça. À noite, deitada na cama, o sono não vinha. Parecia que algo ali chamava por mim. Um sussurro sem som, uma presença muda. Na primeira noite, achei que ouvi choros, abafados, como se viessem de trás da porta trancada. Atribuí à imaginação, ansiedade pela mudança, o cansaço. Ainda assim, me levantei e caminhei até o corredor, apenas para ficar parada ali, em frente à porta, escutando o silêncio.

 

Na segunda noite, tive pesadelos. Vi-me criança, correndo por corredores familiares demais, gritando sem voz. Uma figura me observava, imóvel, atrás da porta. Acordei suada, confusa, olhando fixamente para o corredor escuro. O quarto estava lá, trancado, esperando. Sempre esperando.

 

Os dias seguintes não foram melhores. Comecei a perceber detalhes estranhos no apartamento: marcas na parede que lembravam arranhões de unhas pequenas, manchas desbotadas que pareciam antigas gotas de sangue, rangidos sutis no assoalho mesmo quando eu estava imóvel. Minha mente construía narrativas perturbadoras, e eu sentia uma angústia crescente. A solidão do apartamento me oprimia, como se eu não estivesse sozinha.

 

Decidi confrontar Alberto. Pedi respostas. Ele hesitou, desviou, enrolou, até que explodiu em uma frase desconcertante:

 

"Você realmente não lembra, Amanda?"

"Lembrar do quê?" perguntei, perplexa, com a garganta seca.

"Você morou aqui. Há vinte anos."

Senti o chão sumir sob meus pés.

"Não. Isso é impossível."

"Você não queria lembrar. Eu respeitei seu pedido, mantive o quarto trancado. Achei que voltando, você talvez..."

 

Saí dali cambaleando, sentindo que meu corpo não era mais meu. As lembranças começaram a voltar, fragmentadas, incompletas, mas terrivelmente familiares. A escada da entrada. A luz fraca da sala. A textura da parede do corredor. Tudo.

 

O apartamento não era uma escolha ao acaso. Era uma armadilha que eu mesma havia criado. Eu estivera ali antes, criança. E havia aquele quarto, aquele lugar onde minha mente aprendera a esquecer. Um espaço que minha memória havia fechado com mais força do que qualquer cadeado.

 

Comprei ferramentas no dia seguinte. À noite, depois de horas de hesitação, abri as trancas com mãos trêmulas. O cadeado caiu pesado ao chão. Abri lentamente a porta, sentindo o cheiro abafado de passado esquecido.

O cômodo estava vazio. Apenas paredes descascadas, uma janela pequena e suja, e o eco distante das minhas próprias respirações. Mas eu me vi claramente ali, pequena, assustada, escondida no canto enquanto sombras familiares demais se aproximavam. Os detalhes, por sorte, ficaram perdidos no escuro.

 

Caí de joelhos. Eu não lembrava o que exatamente havia acontecido naquele quarto, mas sabia que minha mente tinha feito tudo para me proteger. Uma vida inteira fugindo de algo que agora me encarava diretamente, mesmo sem nome, mesmo sem forma.

 

E enquanto eu chorava, sentindo o peso das memórias quase recuperadas, compreendi finalmente por que aquele quarto precisava ficar lacrado.

 

Eu ainda não estava pronta para lembrar.

Talvez nunca esteja.

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D
Darlisson Galvao de nethy18 de agosto de 2025
Palhaçada

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