Macbeth - Shakespeare + Polanski + Hefner
Críticas GeraisMuito já foi dito sobre histórias primordiais, legando para a humanidade os moldes de premissa e desenvolvimento pelos quais escritores e roteiristas se aventuram desde sempre. Normalmente, quando esse assunto surge, a Bíblia e A Ilíada sempre são citadas. Menos lembrada, injustamente, é a obra de Shakespeare. Poderíamos incluir Romeu e Julieta ao lado dos dois textos, claro, já que você e eu podemos lembrar, sem muito esforço, de uma boa quantidade de variações dessa história de amor atribulada, mas não para por aí. Indo mais fundo, as peças do Bardo tem um alcance que não se restringe apenas ao casal de Verona. Com tanto peso na cultura popular, nada mais natural que os materiais originais também ganhassem adaptações diretas.

Entre os trabalhos mais adaptados, está Macbeth, a tragédia que acompanha a espiral de corrupção, de paranoia e de loucura enfrentada por um nobre escocês, transformado em assassino por um presságio de tornar-se rei. Séculos depois, ainda é uma história relevante, pois a ambição desmedida continua um traço bastante reconhecível entre nossa espécie e, por isso mesmo, uma motivação crível para atrocidades dentro de uma construção ficcional em qualquer mídia. Há não muito tempo, Joel Coen deu sua contribuição a esse imaginário, em A Tragédia de Macbeth (2021), com Denzel Washington e Frances McDormand à frente do elenco, comprovando a força atemporal do texto. Porém, a versão que nos interessa aqui foi feita cinco décadas antes.
Em 1971, o filme de Roman Polanski chegava às telas. A associação com uma tragédia da vida real é imediata, já que o diretor teve sua esposa, Sharon Tate, assassinada durante a gravidez por integrantes do grupo de Charles Manson, dois anos antes. Pelo tempo necessário para uma produção desse porte, nada incomum supor que este trabalho também foi uma forma de lidar com o trauma, o que gerou um filme que poderia ser bem diferente em outras circunstâncias. Sendo assim, esta é uma abordagem que se destaca por inúmeros méritos artísticos, dentro de um contexto em que a média qualitativa era bem alta, mas uma visão que também encontrou dificuldades para se concretizar.
Sem interesse da parte dos grandes estúdios, coube à Playboy Productions salvar a iniciativa, marcando sua estreia no mundo da Sétima Arte. Para um público atual, talvez o envolvimento da marca e Hugh Hefner creditado como produtor executivo tragam a lembrança de Calígula (1979), cujo produtor - Bob Guccione, da revista Penthouse - inseriu cenas de sexo explícito sem o consentimento do diretor e do elenco. Até hoje, o filme é mais lembrado por isso do que qualquer outra coisa, mas Macbeth passa a anos-luz de distância disso e suas controvérsias não são de natureza apelativa. Para além da questão financeira, ainda foi uma filmagem complicada nas Ilhas Britânicas, por conta do clima.
Me adiantando um pouco, o resultado de tanto esforço foi um fracasso comercial nos EUA, infelizmente. No entanto, o tempo faz justiça para obras como essa, permitindo uma apreciação honesta e profunda além das polêmicas da época. Estas que dizem respeito à violência gráfica e nudez apresentadas, mas nada absolutamente gritante ou desnecessário. Polanski, diferente de Orson Welles e sua abordagem expressionista da tragédia em 1948, apoiou-se no naturalismo do ambiente medieval, destacando-se no visual. Com essa orientação, seria estranho evitar o retrato da violência dentro de uma história de assassinatos e batalhas, ainda mais levando em conta o momento histórico, com a guerra do Vietnã chegando aos lares via TV, e a vivência do diretor. Não apenas por conta da barbárie cometida contra sua esposa, mas por ele mesmo ter visto o nazismo em ação durante sua infância. Este assunto, aliás, inspirou a cena do ataque ao castelo de Macduff.

Sobre a nudez, o caso diz respeito diretamente a uma cena com a atriz Francesca Annis, no momento em que Lady Macbeth já perdeu sua sanidade com o peso da culpa. Sem qualquer tipo de conotação sexual na elaboração da cena, a própria natureza da “confissão” dela está conceitualmente de acordo com o corpo desnudo. Sua juventude e beleza física, assim como Jon Finch interpretando Macbeth ao seu lado, também não são por acaso. Foi criado um contraste bastante interessante entre o exterior e o interior apodrecido do casal, trazendo mais profundidade ao mesmo tempo em que cria outro elemento visual marcante.
Finch entregou uma atuação admirável, caprichando na transformação ao longo do filme. Sua mudança de expressão e gestual, enquanto trilha essa jornada em direção à loucura e derrota, é sutil pela duração do filme, mas absurdamente evidente se compararmos somente o começo e o final. Traços de loucura que caberiam a um imperador romano fazem parte desta composição, como torturar um urso para divertir a corte, contribuindo ainda mais para um personagem já tão rico. Parece exagerado? Na descrição, talvez… Mais escandalosa pode ser uma informação completamente à parte, sobre o cadáver de Lady Macbeth em cena propositalmente na mesma posição de Sharon Tate assassinada.
Pode ser encarado somente como um adendo mórbido para cinéfilos, mas, independente da sua ou da minha opinião sobre isso, e o que Polanski pretendia de fato, é uma comprovação da entrega e da relação pessoal que o cineasta teve com esse longa. No mínimo, é o que faz com que essa não seja somente mais uma adaptação de Shakespeare no meio de milhares, sem nos esquecermos daquilo que foi criado especialmente para o filme, é claro.
Longe de ser um purista, mas seguindo a obra de perto, Polanski já exibe criatividade na apresentação das três bruxas e em suas interações com Macbeth. Esses momentos, mais as visões do usurpador, conferem um toque macabro especial ao conjunto. O longa, como um todo, passa a impressão de que o cineasta fez a balança pender muito mais para a linguagem cinematográfica, ao invés de buscar uma diegese com ar mais teatral. Isso porque os solilóquios característicos de Shakespeare, normalmente declamados pelo elenco, aqui são usados como narração.

A liberdade a qual o realizador se permitiu foi calculada e precisa. Afinal, a peça já traz um conteúdo sombrio, mas o começo dos anos 1970 foi um tempo em que um niilismo carregado era praticamente uma regra. Por isso, detalhes são criados em favor de destacar um ambiente em que ninguém é realmente confiável e a traição é um ciclo contínuo. A lealdade venal de Ross, por exemplo, é um elemento incluído com esse objetivo. A relação entre os filhos do Rei Duncan, tornados órfãos pela traição de Macbeth, é estabelecida através de olhares, sem diálogos, o que já seria o suficiente para sabermos como Donalbain se sente em relação a Malcolm, o herdeiro. Donalbain, no entanto, ganhou outro acréscimo valioso nos momentos finais do filme, novamente sem a necessidade de qualquer fala para que se deduza a turbulência a seguir.
Buscando uma adaptação fiel de Macbeth, e entregando exatamente isso, mas posicionando-a para um novo público, Roman Polanki fez um filme que mantém sua relevância e valor como obra de arte até hoje. Não somente pelo benefício de contar com um texto tão denso, mas pela compreensão sobre o que torna esses escritos atemporais e a sensibilidade sobre seus próprios limites para adaptar, seja retirando ou adicionando. No meio de tamanho alvoroço, o som e a fúria nunca foram tão bem representados.












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