O novo terror de 2025 dos irmãos Philippou é atencioso, detalhista e vai ganhar seu coração
Críticas GeraisO sentimento de considerar um filme verdadeiramente épico é realmente muito satisfatório. Aquela coisa de acabar o filme, levantar da poltrona (ou do sofá, né, sejamos honestos) e pensar, caramba, realmente vi um filmaço. Não é uma sensação que vem sempre. Aliás, ultimamente, tem vindo cada vez menos. Se eu for puxar pela memória, nos últimos tempos só tive isso com Duna: Parte Dois e Pecadores. Filmes que me deixaram meio em silêncio depois, com a cabeça dando voltas, sentindo que assisti a algo grande de verdade.
E aí, no meio disso tudo, fui fisgado por Faça Ela Voltar, filme de terror novo dos irmãos Philippou, os mesmos diretores do polêmico Fale Comigo. E sim, eu sei que muita gente ama Fale Comigo. Mas, sendo bem honesto, eu não sou tão fã assim. Acho interessante, vejo mérito, principalmente na criatividade e na forma como eles conduzem algumas ideias, mas nunca consegui embarcar de verdade na proposta. Só que com Faça Ela Voltar, a história foi outra. Desde o começo, tinha alguma coisa diferente ali. E quando o filme terminou, eu fiquei com aquela sensação gostosa de ter assistido a algo que vai ficar comigo por um tempo.

Não sei nem por onde começar direito, porque é o tipo de filme que vai se revelando aos poucos. Você começa achando que é uma história de adoção estranha, uma casa esquisita, uma figura materna meio fora do lugar… e de repente você percebe que está preso num pesadelo que não tem escapatória. A trama é simples, mas inteligente. E o mais importante, o filme não subestima o espectador em momento algum. Pelo contrário, ele confia que você vai prestar atenção. Que vai lembrar de um pequeno detalhe lá do começo. Que vai captar as entrelinhas. E quando isso acontece, tudo faz sentido. Tudo se amarra.
E quando eu falo que o filme é atencioso aos detalhes, é porque ele realmente é. Sabe aquele diálogo que você pensa que é só um momento aleatório? Ele volta. Às vezes visualmente, às vezes como metáfora, às vezes de forma tão sutil que você nem percebe na hora, só depois, digerindo o filme. E é isso que eu mais gostei. Não tem nada jogado. Tudo tem um porquê. Tudo tem um lugar. Cada elemento, cada plano, cada fala, é tudo pensado com uma precisão cirúrgica. E, de algum jeito, eles conseguem fazer isso sem parecer mecânico. É tudo muito fluido, muito natural. Como se o filme respirasse com a gente.

Mas o que me pegou de verdade foi o elenco. A atuação aqui é absurda. Tem um peso emocional que você não espera de um filme de terror. Principalmente da dupla principal. Piper, que é uma das protagonistas, é interpretada por uma atriz que é cega na vida real, e, se não me engano, essa é uma das primeiras experiências dela atuando. E olha… o que essa menina faz em cena é de um nível inacreditável. A forma como ela sente o espaço, como se relaciona com os objetos, como reage ao ambiente ao redor… tudo é feito com uma verdade tão crua que chega a doer.
E o mais incrível é como o filme respeita isso. A câmera acompanha ela de um jeito delicado, íntimo, nunca apelativo. Você realmente sente a angústia dela quando algo está prestes a acontecer e ela simplesmente não pode reagir a tempo. Não por falta de vontade, mas porque o mundo dela é limitado. E isso é tratado com uma sensibilidade absurda.
Já o personagem do Andy, irmão dela no filme, é outro acerto gigante. Ele tem uma presença forte, mas contida. Carrega um peso nos olhos, uma urgência nos gestos. É como se ele estivesse o tempo inteiro tentando manter o controle de algo que ele já sabe que vai desmoronar. E o mais bonito é que a relação entre os dois é o coração do filme. Não é sobre o medo, não é sobre monstros ou rituais, é sobre vínculo. Sobre cuidado. Sobre tentar proteger quem a gente ama, mesmo quando tudo parece contra. E quando um filme de terror consegue fazer você se importar de verdade com os personagens, pode ter certeza, o susto é só consequência.

Agora, vamos falar da parte técnica, porque ela merece. Que fotografia linda. Sério. É um daqueles filmes que você poderia pausar a qualquer momento e imprimir o frame como um pôster. Mas não é aquela fotografia “clean”, pasteurizada, toda simétrica só pra parecer bonitinha no Instagram. É uma beleza que incomoda. Que pesa. Muita sombra, muito contraste, muita luz entrando por frestas. Você sente o mofo da casa. Você sente o silêncio dos cômodos. E o mais doido, a casa parece um personagem. Não estou exagerando. Em vários momentos, ela parece viva. Como se estivesse observando. Como se estivesse esperando. E esse tipo de construção de ambiente é raro hoje em dia.
O design de som também é um espetáculo à parte. Tem cenas em que o som se apaga completamente e você só ouve a respiração. Outras em que pequenos ruídos viram sustos. Mas não sustos baratos. Sustos orgânicos. Aqueles que você não espera porque não tem trilha te avisando, sabe? A tensão vem do silêncio. E isso, pra mim, é o terror mais eficaz de todos.
E claro, tem gore. E quando vem, vem com força. Mas é pontual. É desconfortável. É pesado. Nada gratuito. Você sente o impacto, mas não desvia o olhar. Porque o filme não deixa. Ele segura tua cabeça e fala, olha isso aqui. E você olha. Porque tudo é filmado com elegância, com ritmo, com intenção. Dá medo, sim. Várias vezes. Mas mais do que isso, dá nervoso. Aquele medo que fica no estômago, que não vai embora com o próximo corte.
Agora, se tem um ponto que talvez deixe um pouco a desejar, mas juro, é pouco, é o conceito da seita, do ritual que permeia o filme. Não que seja ruim, longe disso. A ideia é ótima, inclusive. Mas fica tudo um pouco vago demais. Parece que jogaram ali umas pistas, uns símbolos, uns comportamentos estranhos… e pronto. Não explicam muito. E talvez nem precisem, vai. Tem gente que gosta disso, que prefere o mistério. Eu mesmo gosto, mas confesso que, nesse caso, achei que podia ter vindo um pouco mais. Só pra fechar melhor a proposta. Porque o resto é tão amarrado, tão redondo, que essa parte acaba destoando um pouco. Mas, honestamente? Não estraga nada.

E o final? Que final. É difícil falar sem entregar, mas vou dizer só isso, é diferente. É inesperado. E tem coragem. Muita coragem. Porque ele foge completamente da fórmula. Vai na contramão da maioria dos filmes de terror recentes. Não tenta deixar tudo “explicadinho”, não tenta agradar geral. Ele termina como começou, confiando em você. Confiando que você vai entender. Ou, pelo menos, que vai sentir. E eu senti. Até agora, na real.
Faça Ela Voltar é um daqueles filmes que não grita pra chamar atenção. E você tem que estar disposto a ouvir. Se estiver, vai encontrar um terror de verdade. Um terror que te pega pelo coração antes de te pegar pelo susto. Que te faz lembrar por que a gente ama esse gênero. Porque no fundo, o medo é só mais uma forma de sentir. E esse filme faz você sentir.





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