A DIVERSÃO DO MASSACRE
Críticas GeraisOs motivos que me fizeram amar O Massacre da Serra Elétrica (Tobe Hooper, 1974) são completamente opostos aos motivos que me fizeram amar O Massacre da Serra Elétrica 2 (Tobe Hooper, 1986). O novo filme começa com uma dupla de baderneiros tocando o terror nas estradas do Texas ao som de “shame on you / you’re having too much fun” (vergonha / você está se divertindo demais). O pistoleiro no banco do carona usa um óculos colorido que mimetiza dois olhos, enquanto atira na placa de “Re-Fight Battle of San Jacinto”, no nome da cidade de Dallas e na frase “Remember Battle of The Alamo”. Deste a primeira cena o diretor apresenta as diferenças da sequência em relação ao longa original. Enquanto as placas nos fazem lembrar dos episódios que marcaram a expansão colonialista dos Estados Unidos sobre os territórios até então mexicanos do Texas no século XIX, os óculos do arruaceiro deixam claro que este filme tem um prisma deturpado, colorido e irreverente - em oposição direta a abordagem crua e aterrorizante do primeiro filme.

O destino da dupla se encerra quando resolvem enfrentar uma caminhonete decorada com a bandeira dos Estados Unidos ao fundo. Os arruaceiros não são páreos aos psicopatas patriotas armados com uma serra elétrica. O assassino usa um cadáver como marionete ao matar. Nesta cena, o diretor já não apresenta o corpo morto como uma obra de arte, como fez no primeiro, mas como um objeto profanado pelos assassinos. O terror da guerra não é mais terror, mas entretenimento e escárnio. Os gritos da morte dos baderneiros são transmitidos pelo rádio sob uma trilha sonora divertida e tipicamente oitentista: “You can't change fate, but don't feel so bad / Enjoy it while you can, it's just like the weather / Well, so quit complaining, brother, no one lives forever” (você não pode mudar o destino, mas não se sinta tão mal / aproveite enquanto pode, é como o tempo / bem, então pare de reclamar, irmão, ninguém vive pra sempre).
Em oposição aos tons terrosos e ensanguentados do primeiro longa, O Massacre da Serra Elétrica 2 tem cores vibrantes durante toda a sua duração. Ao invés da lente 16mm que nos aproximava do terror, este filme usa lentes longas, muito mais comuns no cinema comercial dos anos 80. Tobe Hooper aqui abraça o espírito do tempo, expondo seus absurdos e contradições. Em certo momento, um troféu no formato do Texas é banhado em chilli - e mais parece estar sujo de sangue ou bosta. O vencedor do troféu? O psicopata patriarca da família de canibais do primeiro filme.

A protagonista do filme é a radialista Stretch (Caroline Williams), apresentadora de um programa de rock da rádio, que recebe uma ligação dos baderneiros durante sua transmissão e acaba ouvindo a morte dos dois. Ao tentar ajudar o Tenente Lefty (Dennis Hopper), tio de Sally e Franklin (vítimas do primeiro filme) - a única pessoa que acredita que o assassino da serra elétrica continua atuando na região - Stretch acaba se envolvendo na trama de terror da família canibal.
A família, inclusive, está ainda mais excêntrica, com um humor bem acentuado. The Cook, o patriarca, aprendeu a se mesclar bem com a vida no Texas, mas é ainda mais agressivo com os filhos do que no primeiro filme. Chop-Top, irmão mais velho do Leatherface, agora tem uma placa de metal na cabeça que conseguiu no Vietnã. Enquanto isto, o próprio Leatherface agora mistura morte com amor, terror com paixão, e tem um orgasmo com a serra elétrica enquanto é seduzido pela radialista.

Enquanto Stretch passa horas de horror nas mãos dos canibais, o personagem de Dennis Hopper segue sua própria saga solitária de gritar sozinho para as paredes, buscando uma vingança pessoal pela morte de seu sobrinho, mas quase nunca chegando em lugar algum. Quando finalmente chega, derrubando o covil dos vilões, é inundado por toda a estrutura que tentava destruir. Na nossa busca por cenas que impactem a narrativa principal, o arco do tenente Lefty pode parecer vazio e repetitivo, mas não é assim a vingança na vida real? Um homem maluco e sozinho com uma serra elétrica na mão, cortando tudo o que vê pela frente e morrendo pelas consequências da própria jornada.
Tobe Hooper entende bem a atmosfera do novo tempo e o tesão que o público sente pelas narrativas sanguinolentas. As sequências de ação são divertidas, muitas vezes repetindo - sob um prisma colorido - as mesmas sequências do primeiro filme (como quando entregam um martelo nas mãos do avô centenário para matar a última vítima). Para além da forma, as críticas ao patriotismo americano estão novamente presentes no texto, como quando a família canibal reclama da forma como os pequenos empreendedores são tratados nos Estados Unidos.
O filme tem seu ápice quando a sua final girl, ao invés de fugir da serra elétrica e dos horrores do massacre, se junta ao terror e mata o seu algoz com o mesmo instrumento que a perseguiu durante toda a trama. Replicando o balé violento do Leatherface ao final do original, a radialista Stretch dança com a serra na mão, marcando a vitória do gozo da violência sobre a pureza e alívio da fuga do primeiro longa. Mesmo sofrendo horas nas mãos do terror, Stretch - aqui representando tanto a mídia quanto nós, o público - goza com seu ato final de vingança e nós, hipócritas, gozamos com ela.

ADENDO: O poster do filme - parodiando o cartaz de O Clube dos Cinco com a família de canibais - é mais uma delícia sarcástica e terrível que O Massacre da Serra Elétrica 2 nos proporciona.










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