Não é “Lilo & Stitch”, é “Nani”

Personagens

Eu odeio os remakes live-action da Disney — embora agora, como em Thunderbolts*, eu tenha que adicionar um asterisco a esse fato. Porque sim, eu os odeio. Eles são criativamente preguiçosos, na melhor das hipóteses, e um ataque direto à nostalgia, na pior... Mas eu não odiei o novo Lilo & Stitch. Uma opinião ruim de se ter, a julgar pelo consenso da internet, mas me ouçam antes de tacarem pedras. Não estou dizendo que o novo filme é tão bom quanto o original; nem estou dizendo que é exatamente bom. O que estou dizendo é que me ofereceu uma perspectiva totalmente nova, porque 23 anos depois do original, eu não sou mais a mesma pessoa.

 

Em 2025, não me vejo mais na Lilo ou no Stitch — mas na Nani.

 

 

Duvido que eu precise apresentar a trama: é um remake, então é mais ou menos a mesma da animação. Se você ainda não conhece a história, por que está lendo este artigo? O que vou abordar são algumas das mudanças feitas no live-action que estão sendo criticadas.

 

Jumba e Pleakley, por exemplo, ficam na forma humana na maior parte do filme. Isso não só tirou muito do humor dos personagens, como também, por algum motivo, fez com que Pleakley não se vestisse de mulher — acho que os covardes da Disney não queriam ofender a sensibilidade conservadora com um personagem “trans”. Que pena.

 

Eles também retiraram muitas das críticas e das piadas dirigidas aos turistas da ilha. Vi algumas teorias bastante convincentes que afirmam que a Disney está planejando experiências temáticas de Lilo e Stitch no Havaí e não quer insultar seus possíveis clientes, embora a indústria do turismo no estado já esteja insustentável. Muito mais pena.

 

O maior erro do filme, porém, foi a mudança no plot da Nani. Alerta de spoiler: ela abandona a Lilo no final para estudar biologia marinha na Califórnia, mesmo o Havaí tendo algumas das melhores universidades da área. Não era “Ohana quer dizer família e família quer dizer nunca abandonar ou esquecer”?

 

Não tenho tanta certeza se isso ainda vale.

Não vou comentar se a escolha da Nani se alinha com a cultura havaiana, porque estou longe de ser uma autoridade no assunto. Mas posso dizer o seguinte: pela primeira vez, entendi mesmo o que Nani estava passando, e parte disso se deve ao fato de ser um live-action e não um desenho animado. Sei que animação não é só para crianças, mas ver Sydney Agudong como a Nani nos obriga a confrontar a personagem de uma forma mais tangível. Não é só sua atuação, é o fato de ser real. Vi as emoções que Agudong desperta na minha família, nos meus amigos... e até em mim.

 

No fim das contas, o novo Lilo & Stitch me impactou muito mais porque conheço o mundo muito melhor agora do que aos quatro anos de idade. Embora eu fosse uma agente do caos como a Lilo quando assisti ao filme pela primeira vez, agora entendo o que a Nani está passando — e me vejo nela.

 

Embora eu nunca tenha perdido meus pais nem cuidado da minha irmã mais nova (ainda bem), passei um ano cuidando da minha avó doente enquanto lidava com dificuldades financeiras. Quando assisti ao novo filme, senti o peso da responsabilidade da Nani e a inviabilidade de sua situação. Eu me vi nela, a ansiedade de tentar seguir em frente, mas se sentir estagnada, e a leve amargura humilhante que isso causa. Porque sim, eu estava fazendo a “coisa certa”, e sim, família significa nunca abandonar ou esquecer... mas por que isso normalmente significa abandonar duas pessoas e não levá-las juntas?

No novo filme, Nani se deixa ser abandonada pelo bem da irmã. É um sacrifício nobre... mas não necessário. Ela pode ser a única família biológica de Lilo, mas sua rede de apoio se estende à comunidade. Quando essa comunidade se manifesta, na forma de Tūtū e David assumindo a tutela de Lilo, eles garantem que Nani também não seja abandonada. Lilo é cuidada por pessoas que a amam e entendem sua cultura, e Nani consegue um diploma (mas por que no continente...) que, com sorte, a ajudará a sustentar Lilo no futuro. Todos seguem em frente, juntos.

 

Quantos de nós lamentamos a falta da vida comunitária hoje em dia? Quantos de nós falamos sobre a necessidade da solidariedade, de pessoas que moram próximas e se apoiam? Mas, quando Nani consegue isso, é uma traição a tudo o que Lilo & Stitch representava, aparentemente. Não posso dizer que a partida de Nani para o continente faça sentido, e é dolorosamente conveniente para a trama que ela consiga se teletransportar de volta para o Havaí quando quiser, mas não acho que “não abandonar” deva ser sobre estar presente fisicamente. Será que devemos ficar bravos com a mensagem de que sua comunidade é parte de sua família e que temos que aceitar o cuidado tanto quanto o damos?

 

O martírio não é divertido nem útil. Não devemos incentivá-lo mais do que já fazemos, especialmente entre as mulheres, né?

A versão de 2025 de Lilo & Stitch é falha e problemática em vários aspectos. Nunca vai ser o que a original era, e me irrita termos um remake de um filme já incrível em vez de um novo clássico sobre o Havaí e seu povo. Ainda assim, gosto do fato de que foi o primeiro remake live-action em que o fato de ser live-action realmente mudou a experiência para mim, e até gosto da mensagem que ele tenta transmitir, por mais desajeitada que seja.

 

Não estou pedindo que você ame o novo Lilo & Stitch. Nem que você goste. Mas espero que, depois de ler meu texto, você entenda por que algumas pessoas se identificam com ele, porque, em algum nível, para algumas pessoas, é um lembrete importante e necessário de que nós também não merecemos ser abandonados.

Comentários 1

U
User-141903884325 de junho de 2025
Muito bom esse filme eu gostei muito dos gráficos e das linhagens

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