Terror dentro e fora do ecrã
NarrativaAri Aster não precisa de ajuda para perturbar o público. Hereditary (2018) é um dos filmes de terror mais chocantes que existem: sem gritos, sem sustos repentinos, sem espíritos transparentes. O seu é um stress doméstico que se desenvolve lentamente, tornando-se cada vez mais desconfortável. Vê-lo numa sala de cinema, com o seu ambiente regulado, é qualquer coisa. Apreciá-lo no pátio de uma casa antiga em Almagro é uma experiência completamente diferente. E foi aí que o estranho não estava no ecrã, mas do outro lado dele.
Hereditary estreou em 2018 e, desde então, tem sido uma referência na tendência contemporânea da arte psicológica. No seu primeiro ato, Aster constrói um desastre familiar tão aterrador, onde o sofrimento, o conflito e o remorso se tornam gradualmente sobrenaturais. O medo não se manifesta como um susto. O realizador apela ao suspense para manter uma carga permanente nos nervos do espetador. Ver o filme sozinho já é uma experiência difícil, vê-lo em grupo pode aumentar esse medo.
Uma noite de terror com um final inesperado
O evento teve lugar em casa da minha amiga “Luna”. Foi um pequeno encontro: cerca de trinta pessoas reunidas num pátio, sentadas em cadeiras dobráveis, apoiadas em almofadas, vinho em recipientes de plástico e utilizando um projetor alugado que abanava com os graves. A anfitriã resolveu o ecrã com um pano branco suspenso, preso com pregadores de roupa entre duas cordas.

O tipo de exposição que, sem o sugerir, cria alguma magia de rua: ar livre, cinéfilos e o desconforto do som como condimento necessário. Na cidade de Buenos Aires, qualquer evento cultural debate-se com sons de fundo: sirenes, motas, vizinhos com música. Mas esta noite foi além disso.
Quando o filme se fundiu com os acontecimentos reais, cerca de quarenta minutos depois, quando os efeitos hereditários começaram a ser realmente angustiantes, um súbito grito alto interrompeu a calma:
- Pousem isso! Há pessoas que querem descansar!
O aviso vinha de uma janela que dava para o terraço onde o filme estava a ser exibido. Pausa. Silêncio. Alguns risos. Ninguém se mexe. O filme continua num volume mais baixo, pensando que isso calmaria ao vizinho. Mas passados alguns minutos, ouve-se o som:
- É a última vez que te digo! Desliga isso!
Como ainda era cedo, Luna decidiu continuar a projeção. Poucos minutos depois, um líquido caiu de um terraço, salpicando e salpicando vários espectadores. O ambiente tornou-se tenso, mas não da forma que Ari Aster previra. Agora eram os gritos dos espectadores que se ouviam, evidenciando a frieza da água que lhes tinha caído em cima. Desta vez, o espetáculo parou completamente. A Luna entregou toalhas aos que ficaram encharcados, eu estava mais à frente e a água mal me atingiu. Foi então que aconteceu algo que, paradoxalmente, reforçou a essência do filme: decidiu-se vê-lo em silêncio, com auscultadores partilhados e legendas.
A comunidade reorganizou-se o mais possível, formando pequenos “pares sonoros”, como se nos tivéssemos juntado num acordo partilhado e escondido.
O medo mostrado no ecrã foi combinado com a suspeita de que estavam a gritar novamente. A experiência alargada: mais do que a tensão emocional do filme, as condições de projeção foram intensificadas. A ausência de autoridade sobre o meio envolvente, em vez de prejudicar o objetivo de apreciar o espetáculo, transformou o encontro num ato partilhado. Longe de mergulharmos no inferno da família Graham, estávamos imersos no tumulto, na inquietação e na inevitabilidade.

No final, ninguém aplaudiu. Apenas se ouviram suspiros. E depois breves comentários, como se estivéssemos a quebrar um feitiço. No dia seguinte, o organizador encontrou um bilhete do vizinho debaixo da porta: “Esses filmes que vês com os teus amigos não só perturbam a minha paz, como abrem portais que nunca poderão fechar”. Quando Luna nos contou, não sabíamos se devíamos rir ou ficar assustados, a questão é que nessa noite tudo aconteceu para que Hereditário não pudesse ser o protagonista do terror que se senti aquela noite.

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