A poltrona vinte e um
NarrativaAdoro ir ao cinema às terças-feiras à tarde. Pra mim, não tem nada igual a uma sala quase vazia, aquele silêncio antes do filme começar, e a liberdade de escolher o melhor lugar sem stress. Tem um cinema velhinho no centro, desses que ainda têm cheiro de pipoca antiga e madeira gasta, que é o meu preferido para essas fugidinhas. Ele não fica em shopping nenhum, o que o torna ainda mais especial..

Nessa terça-feira em particular, o dia estava bem nublado e perfeito pra um filmaço. Escolhi uma sala pequena, daquelas que têm umas vinte poltronas, com os assentos de veludo já bem usados. Quando entrei, só tinha um senhor. Ele tava sentado umas filas na frente, de perfil, olhando pra tela. Era um cara grande, com uma boina de lã e um casaco que parecia ter saído de outro tempo. Me ajeitei um pouco mais atrás, no meio, feliz por ter a sala quase toda pra mim.
O filme começou, um daqueles de mistério que te deixam grudado na cadeira. No começo, tudo normal, mas lá pela metade do filme as coisas estranhas começaram a rolar. Primeiro, ouvi um sussurro à minha direita, como se alguém estivesse mastigando algo de leve, mas não tinha ninguém. Olhei em volta, e o senhor da boina continuava lá, parado. Depois, a tela piscou umas vezes, tipo se a lâmpada do projetor estivesse falhando, mas num cinema tão antigo, isso nem era tão esquisito. O que me arrepiou mesmo foi quando, num momento de tensão do filme, senti um calafrio gelado na nuca, como se alguém me soprasse, e um cheiro de lavanda antiga invadiu o ar por um segundo. Virei rapidinho, mas não tinha ninguém. O senhor continuava lá, nem se mexia. Pensei: "Esse cara é mais tranquilo que um lago".

Quando o filme acabou e as luzes acenderam, me espreguicei e esperei o senhor se levantar. Me pareceu vê-lo ir em direção à porta com uma lentidão que me deixou meio intrigada. Saí da sala, e lá estava o guri que controla as entradas, ajeitando umas poltronas no corredor. Cumprimentei-o e, com a adrenalina do filme e as coisas estranhas, comentei:
— E aí, viu que louco tudo o que aconteceu na sala 3? A tela piscava, e eu senti uns calafrios... E o senhor, não te falou nada quando saiu?
O guri me olhou com uma sobrancelha levantada, meio pensativo.
— O senhor? — perguntou. — Olha, já ouvi antes que nessa sala acontecem coisas estranhas, e que às vezes o pessoal diz que viu um senhor. Mas eu, no tempo que tô aqui, nunca vi. E, de fato, acabei de conferir e a única pessoa registrada na sala 3 era você.
Meu coração deu um pulo. Olhei pra ele com os olhos arregalados.
— Como assim a única? Se tinha um senhor com uma boina! Tava sentado lá na frente...
O guri só encolheu os ombros, com uma expressão que misturava espanto e conformismo.
— É, te digo. É sempre a mesma coisa com essa sala. Mas pra mim, você tava sozinha.

Fiquei em silêncio, processando tudo. A boina, o cheiro de lavanda, o sussurro... de repente, tudo se encaixava de um jeito que me deu um arrepio. Não soube mais o que dizer. Agradeci e saí do cinema com uma sensação estranha, misto de calafrio e uma espécie de carinho. Desde esse dia, quando vou a esse cinema às terças-feiras à tarde, sempre procuro com o canto do olho por aquele senhor da boina. E se sinto um calafrio ou um aroma de lavanda, em vez de me assustar, me dá um sorriso. Parece que não sou a única que adora cinema velho e tranquilo, e que tem uns espectadores bem fiéis por lá.

Comentários 7