A comédia é subestimada

Críticas Gerais

Óbvio que todos nós que gostamos, consumimos e até escrevemos sobre cinema, sempre tivemos talvez um pequeno sonho de nós mesmos estarmos atuando ou até dirigindo um longa. E sempre que me coloco em imaginações de possíveis papéis que eu poderia interpretar, sempre vem o mesmo questionamento: qual o tipo de atuação é a mais difícil de fazer? 

 

Seria um papel em um filme de drama? Um de ação, tipo Duro de Matar? Um pastelão como Debi e Lóide? É uma escolha que acaba se tornando subjetiva, porém, nesse quesito, venho trazer essa “maldição” que se tornou muito comum em Hollywood: atores que são conhecidos por fazerem papéis de humor, quando migram para produções que exigem um peso dramático, sempre entregam acima do esperado. 

 

Eu tive essa ideia de artigo quando estava assistindo ao trailer do filme HIM, nova produção de Jordan Peele. Durante o teaser, me deparo com Marlon Wayans em um papel com algum peso dramático, se diferenciando de produções que ele já participou como As Branquelas, Todo Mundo em Pânico, Inatividade Paranormal e diversos outros filmes de comédia. Neste exato momento, parei e pensei: “Cara, será que vem por aí mais um ator que ninguém leva a sério que vai emplacar uma atuação memorável?”. Então acabei criando um hype para saber como será sua performance em HIM, para ver se essa teoria irá se concretizar mais uma vez

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Antes de mostrar atores que sofrem dessa “maldição”, precisamos entender o motivo de o humor ser tão subestimado dentro do sindicato de atuação. E aqui vão dois motivos que acredito que fazem com que essa arma artística acabe sendo “ridicularizada”: 

 

Comédia exige menos talento? 

Uma grande parcela de pessoas acredita que, quando se trata de humor, esse nicho de atuação acaba sendo mais fácil que outros. Mas isso é uma afirmação errada. Comédia exige timing, inteligência, entender o contexto inserido e o peso cultural. E por parecer “menos profundo”, as pessoas consequentemente julgam como mais fácil. E isso reflete talvez um pouco na expressão que todos nós usamos: “quem faz o palhaço rir?”. Atores de comédia têm um grande talento de conseguirem, por meio de piadas, esconderem e até, de formas bem sutis, demonstrar uma dor gigante que os atormenta. Infelizmente, Robin Williams está aí de prova. 

 

Drama é “internacional”, comédia é local 

Um fator que também corrobora para que o humor acabe sendo subestimado é a questão cultural de onde ele é exercido. Na teoria, um filme de drama consegue ser consumido por muitas pessoas ao redor do mundo em comparação à comédia, pela questão da dor, sofrimento e tristeza, todos têm “noção” de como é. Mas as piadas, por carregarem um peso cultural, acabam que “somente” pessoas que entendem aquele contexto podem se divertir e dar risada. Porém, esse tipo de pensamento só contribui para o assassinato do consumo diversificado de arte e cultura de diversos países. Porque uma produção humorística carrega tanto peso de sua origem, que ensina, propaga e divulga uma cultura que talvez o consumidor nunca tenha tido contato, enriquecendo ainda mais nosso conhecimento cultural e cinematográfico. 

Entendendo meu ponto crítico ao sindicato de atuação, vamos para os nossos principais amaldiçoados. 

 

 

 

Adam Sandler 

 

Adam Sandler começou como um doido no Saturday Night Live nos anos 90, com personagens malucos e musiquinhas sem sentido que grudavam na cabeça. Quando pulou pro cinema, não foi muito diferente. Em Billy Madison, ele já estava no modo “adulto de 10 anos de idade”, e isso virou a marca registrada dele. Depois, emendou uma série de comédias populares como O Paizão, Como Se Fosse a Primeira Vez e Gente Grande, filmes que a crítica torcia o nariz, mas o público comia com farinha. Durante anos, parecia que ele vivia no piloto automático do humor meio bobo, e muita gente achava que era só isso que ele sabia fazer. 

Mas aí, do nada, ele surge em Embriagado de Amor e mostra que sabe, sim, atuar pra valer. Interpretando um cara esquisito, retraído e cheio de angústias internas, Sandler surpreendeu. E o mais impressionante, ele fez isso sem perder aquele jeitão dele, só que controlando e colocando tudo a serviço do drama. Mas o auge foi mesmo Joias Brutas, onde ele interpreta um joalheiro viciado em apostas, falando rápido, suando frio e basicamente tendo um colapso por duas horas seguidas. A atuação foi tão boa que, claro, o Oscar ignorou, porque aparentemente ainda tem quem ache que humorista não pode ser um ator sério.  

 

 

Jim Carrey 

 

Jim Carrey é um dos meus atores favoritos, e com razão. O cara começou com uma trinca absurda em 1994: Ace Ventura, O Máskara e Debi & Lóide. Só esses três filmes já são suficientes pra dizer que ele redefiniu a comédia física dos anos 90. Ninguém fazia as caretas, os gestos, os gritos, os exageros do jeito que ele fazia, parecia um desenho animado em carne e osso. 

Mas Jim sempre teve mais a oferecer. Quando chegou O Show de Truman, a galera ficou meio sem saber como reagir. Esperavam piada, receberam um tapa existencial. E ele mandou muito bem. Aí veio Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças e aqui, desculpa, eu paro tudo. Esse filme é simplesmente o número 1 da minha vida. Carrey está absolutamente genial interpretando um cara comum tentando apagar as memórias de um amor perdido. Ele mostra que sabe ser melancólico, sutil e humano. Nada de caretas, é emoção pura, crua e verdadeira. 

 

 

Robin Williams 

 

Robin Williams talvez seja o maior exemplo de comediante que soube fazer drama como gente grande. Começou lá atrás com Mork & Mindy, interpretando um alienígena bizarro que já mostrava o quanto ele era bom de improviso. Mas o divisor de águas foi mesmo Sociedade dos Poetas Mortos. Aquele papel do professor John Keating é inesquecível, um cara sensível que acreditava no poder da arte, da poesia, da liberdade. E olha só, mesmo num drama, ele nunca deixou de ser engraçado, ele só canalizou isso de forma mais sutil, mais verdadeira. 

Depois brilhou também em Gênio Indomável, onde vive um psicólogo sensível e traumatizado, e entregou uma das atuações mais bonitas do cinema. Ganhou o Oscar e o respeito de quem ainda achava que ele só servia para fazer rir. Mas o que mais dói é saber que, por trás daquele brilho, havia um abismo. Robin cometeu suicídio em 2014, e isso escancarou uma verdade brutal, por trás do humor, havia uma dor gigante que ele escondia do mundo. E talvez essa seja a maior lição de todas, rir também é uma forma de sobreviver. 

 

Menção Honrosa 

 

Se tem um cara que ninguém esperava ver dirigindo uma das séries mais inteligentes dos últimos anos, é o Ben Stiller. Sim, o Zoolander, o homem da expressão única. Mas aí ele surge com Ruptura e entrega uma obra distópica, fria e brilhante sobre o vazio do mundo corporativo. A série é tão bem dirigida que parece vinda de alguém que estudou filosofia existencial em um cubículo da Google. Stiller prova que, por trás do palhaço, sempre houve um artista sério só esperando a hora de ser levado a sério. 

 

“Em Hollywood, enquanto o drama grita, a comédia sussurra, e o sussurro raramente leva estatuetas pra casa.” 

 

Será que após esse artigo o humor continuará sendo subestimado?

Comentários 4

B
Bia Matera19 de junho de 2025
Paul Giamatti e Steve Carell são outros dois atores muito subestimados e que arrasaram no drama! Acho que o Carell dispensa comentários, especialmente com a leva de últimos trabalhos, mas o Giamatti me ganhou totalmente já no primeiro episódio de Billions. Tive até certa dificuldade quando vi a participação dele em Downton Abbey, porque achei que viria palhaçada também. Ótimo texto!
T
Tela & Pipoca6 de junho de 2025
Texto perfeito pra mandar pra aquele amigo que fala “mas comédia é só bobeira”. Não é não, meu bem. É timing, cultura e camadas.
K
kauamarths25 de maio de 2025
perfeito! falou tudo o que eu penso e muito mais!!!
M
Murilo25 de maio de 2025
Melhor texto que li sobre cinema.

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