A vida de Val Kilmer como a alegoria de um ator

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Val Kilmer, o renomado ator conhecido por filmes como Batman Eternamente, The Doors e Fogo Contra Fogo, faleceu aos 65 anos após uma longa batalha contra o câncer. Sua filha declarou que a causa da morte foi uma pneumonia.

 

 

Em 2022, Kilmer fez um breve retorno em Top Gun: Maverick, mas devido a um câncer na garganta, ele não conseguia mais falar normalmente. Seu documentário autobiográfico Val talvez ofereça o melhor panorama da vida desse eterno Batman. O filme foi selecionado para o Festival de Cinema de Cannes de 2021.

 

 

Como devemos definir se a carreira de um ator é um sucesso ou um fracasso?

 

De uma perspectiva convencional, o sucesso é medido pelo salário e pela fama. De acordo com esses padrões, Kilmer — que viveu um período de estrelato na década de 1990 — foi, sem dúvida, bem-sucedido: recebia salários multimilionários por cada filme que fazia, interpretou o Batman e seu rosto dividiu os pôsteres do filme Fogo Contra Fogo com Al Pacino e Robert De Niro. Em termos de fama e fortuna, ele certamente conquistou tudo o que podia.

 

 

No entanto, se levarmos em conta as expectativas que as pessoas tinham em relação a ele, a carreira de Kilmer parece um pouco sem graça. No auge, sua boa aparência conseguia competir com a de Brad Pitt, e seus principais concorrentes para papéis nos anos 90 costumavam ser Keanu Reeves e Johnny Depp.

 

Esses atores, uma vez comparados a Kilmer, não apenas alcançaram lugares de destaque, mas mantiveram seu brilho até o século XXI. Em contrapartida, a carreira de Kilmer entrou em declínio no início do novo milênio. Com exceção de Alexandre e Beijos e Tiros, ele passou a maior parte de seus últimos anos aparecendo em projetos de baixo orçamento, produzidos diretamente para o DVD.

 

Mesmo em termos de atuação, Kilmer ficou aquém dos outros atores. Por exemplo, Steve Buscemi, James Spader e Christopher Walken nunca foram grandes estrelas do mainstream nem protagonizaram grandes sucessos de bilheteria como Kilmer, mas deixaram marcas pessoais inconfundíveis em cada papel que interpretaram, conquistando espaços únicos no cinema e na televisão.

 

 

Kilmer, por outro lado, é mais difícil de definir em poucas palavras. Como ator, sua aparência se destacava até demais; como galã, sua aura era muito excêntrica — mas não da mesma maneira que Depp ou Walken. Como astro de ação, não tinha a força bruta necessária; e como talento, nunca nem recebeu uma indicação ao Oscar. Seus dois papéis mais emblemáticos — “Iceman”, o rival de Tom Cruise em Top Gun: Ases Indomáveis e Jim Morrison em The Doors — existiram à sombra de figuras maiores.

 

 

Talvez, se nada tivesse mudado, Kilmer teria desaparecido discretamente dos holofotes, como muitos outros que foram esquecidos por Hollywood, recebendo homenagens simbólicas de vez em quando, mas sem novos papéis significativos.

 

Foi somente em 2017, quando Kilmer apareceu em um evento comemorativo de Fogo Contra Fogo, que as pessoas começaram a prestar mais atenção no ator. Antes acima do peso, ele estava extremamente magro na época, com dificuldades para falar. Pouco tempo depois, Kilmer admitiu publicamente o que havia escondido durante anos: ele estava lutando contra um câncer de garganta e estava em recuperação na época.

 

 

O público ainda tem uma queda por heróis caídos. A visibilidade de Kilmer aumentou novamente: ele apareceu em convenções de quadrinhos e exibições especiais, dando autógrafos para os fãs. Além disso, ele se juntou ao elenco da sequência de Top Gun e estreou seu documentário autobiográfico Val, que ele mesmo produziu, em Cannes.

 

No entanto, em Val, a imagem de quem foi Kilmer permanece confusa. Ele aparece como uma alma sensível, um ator comprometido, um pai amoroso — tudo verdade, mas não exclusivo dele. Nas questões mais delicadas da carreira e da vida, Kilmer evita o confronto ou a reflexão profunda. Assim, Val torna-se um memorial oficial e polido. Sem maiores informações ou revelações mais obscuras, como um assunto pode ser realmente lembrado?

 

 

Um aspecto impressionante em Val é o hábito compulsivo que Kilmer tinha em documentar sua vida. Desde a infância, ele e o irmão Wesley usavam uma filmadora para fazer curtas-metragens, com Val como protagonista e Wesley como diretor e ator coadjuvante. Seu amor pelo cinema foi nutrido por essas brincadeiras.

 

Mas a tragédia aconteceu quando Val tinha 18 anos: Wesley, de apenas 15 anos, acabou se afogando na banheira durante uma crise de epilepsia. Toda a família Kilmer ficou arrasada. Val disse que perdeu seu melhor companheiro e confidente.

 

 

Por mais de quarenta anos, Val continuou registrando sua vida; às vezes filmando a si mesmo, às vezes recorrendo a amigos. Das primeiras fitas de audição às festas de encerramento, seu casamento, a vida familiar com a esposa e os dois filhos, até mesmo suas dificuldades pessoais com a atuação — tudo foi capturado por suas lentes.

 

No entanto, essas gravações também revelam as tendências de Kilmer. Ele adorava fazer palhaçadas para a câmera, transformando a própria vida em uma continuação da performance, mas raramente demonstrava profunda autoconsciência sobre os eventos que se desenrolavam ao seu redor. O tratamento superficial do documentário e sua estrutura solta talvez resultem dessa falta de introspecção.

 

 

Por exemplo, Kilmer não faz comentários sobre seu notório comportamento no set. Entre os diretores que se desentenderam com ele estão Richard Stanley, John Frankenheimer (ambos em A Ilha do Dr. Moreau) e Joel Schumacher (Batman Eternamente). Palavras como “infantil”, “neurótico”, “irracional” e “rude” foram usadas para descrevê-lo. Relatos da mídia sugerem que, durante essas produções, ele costumava chegar atrasado, errava as falas intencionalmente, discutia com os diretores e demonstrava pouco respeito pelos membros da equipe (segundo relatos, uma vez ele apagou um cigarro no rosto de um cinegrafista).

 

Em relação à vida pessoal, Kilmer deixou muitas coisas no ar. Seus romances com Darryl Hannah e Cindy Crawford não são mencionados. Sua recusa inicial em se submeter a tratamentos tradicionais contra o câncer, influenciada por uma decisão religiosa, é brevemente mencionada.

 

Entre os momentos mais emocionantes capturados está a reflexão de Kilmer sobre sua vida após a fama: “Aqui estou eu, voando pelo país, vendendo meu passado para ganhar a vida. Para muitos, esse seria o ponto mais baixo. Mas, no final das contas, senti gratidão, e não vergonha, ao encontrar meus fãs.”

 

 

Ainda assim, a amargura é inegável. Depois de autografar centenas de pôsteres de Top Gun e Batman em uma feira de quadrinhos, Kilmer, fisicamente exausto, teve que ser levado sob um cobertor. Essas pequenas e discretas humilhações tornaram-se regra em seus últimos anos.

 

 

Como ator, Kilmer não deixou uma marca permanente em sua carreira. Como documentarista, Val não conseguiu encontrar uma voz forte e dominante. Isso reflete o destino do próprio Kilmer: depois da traqueostomia, já não era mais possível falar com naturalidade. Porém, mesmo antes disso, sua voz já não pertencia somente a ele — foi emprestada a Jim Morrison, ao “Iceman”, ao Doc Holliday em Tombstone: A Justiça Está Chegando e ao Mark Twain que ele adorava interpretar.

 

 

Sua gana em querer criar e se expressar muitas vezes colidia com a ausência de voz, encontrando um meio de se comunicar apenas quando habitava outras almas. Essa é tanto a fonte da força de um ator quanto a essência de sua tragédia.

 

Sob esse prisma, a vida de Kilmer torna-se uma parábola quase perfeita sobre suas dificuldades no mundo do cinema.

Comentários 1

C
Carlos Norcia15 de abril de 2025
Ele vai deixar muitas saudades mesmo!

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