"Morrendo por Sexo" é um retrato feliz, cru e sensual sobre ser mulher

Críticas Gerais

 

São 23h45 da noite de um sábado. Eu estou em prantos. De verdade, em prantos. Mas de um jeito bom (eu acho). Acabei de terminar minha maratona da nova série da Disney+ “Morrendo Por Sexo” e vim correndo escrever - ou começar, pelo menos - este artigo. Tudo porque meu cérebro está derretendo com tanta coisa incrível que tenho para falar dela. A começar com: “POR QUE NINGUÉM ESTÁ FALANDO DESSA SÉRIE???”. 

 

Ok, agora que já gritei com vocês, posso ser um pouco mais racional ao trazer todos os pontos maravilhosos sobre ela. A produção que estrela Jenny Slate e Michelle Williams conta a história verídica de Molly, uma mulher no fim de seus 30 anos que descobre ter câncer terminal e decide acabar com seu casamento para viver a vida sexual que ela merece. 

 

Ah, Marcela, mas então é uma série de comédia? Sim e não. Baseada no podcast da Wondery com o mesmo nome (que eu estou doida pra ouvir, inclusive), ela é uma espécie de dramédia verossímil que nos guia pela vida da Molly e Nikki, sua melhor amiga, e nos mostra que as vezes a jornada é triste sim, mas existe tanta, tanta coisa maravilhosa no meio que é até de se arrepiar. Se você curtiu Fleabag, por exemplo, com certeza precisa assistir essa produção. 

 

Mas e o sexo? 

Sim, os oito episódios giram muito em torno da descoberta sexual de Molly, após confessar para sua melhor amiga que em todos esses anos de vida (apesar de dois cânceres) nunca havia tido um orgasmo com um homem - nem mesmo seu ex-marido. O ex, inclusive, é interpretado por Jay Duplass, e nos lembra o tempo inteiro como ele vê Molly apenas como um corpo que já não serve mais para sexo, apenas para dor e tristeza, mesmo curada de um câncer de mama.

 

A partir daí vemos uma Michelle Williams impecável em nos mostrar como funciona o desejo feminino e a busca por sua satisfação. Ele é alegre, divertido, despretensioso e foca nos pequenos detalhes que podem virar a chave para uma mulher. Em certo episódio, o simples fato de um homem ouvir música em um airpods pode fazer com que a chama de Molly se acenda, por exemplo. E o mais legal é que ela não leva esse desejo e a jornada do prazer sexual como uma femme fatale ou como uma mulher casta, e sim quase como uma adolescente. Descobrindo que o sexo da maneira como fomos ensinados, onde homens foram feitos para aproveitá-lo e mulheres para sentir culpa por almejá-lo, é completamente errônea e que a experiência do prazer vai muito além do papai e mamãe.

 

Uma frase me impactou muito na série, e pra mim, resume muito o que deveríamos pensar quando o assunto é prazer. “Sexo não é só orgasmos e penetração. Sexo começa quando dois campos de energia de pessoas se encontram” e boom, de repente nos vemos atraídos por toda pequena coisa que aquela pessoa faz. E Molly, apesar de trazer toda a experiência com leveza, nos mostra que também não veio para brincar. 

 

Ela descobre após certo tempo que, entre quatro paredes, gosta muito de ser a parte dominante da dinâmica sexual. E aproveita os diversos encontros em aplicativos para explorar esse fetiche de dominar homens com quem sai, sempre mantendo uma distância. Até que encontra Ernie, seu vizinho, que aparentemente tem um grande match com os fetiches de Molly - o quão raro é isso?? - e os dois começam uma dinâmica relativamente distante, uma vez que tanto a personagem principal quanto nós telespectadores sabemos bem que o encontro de portas vai virar romance. E essa hora somos lembrados que o câncer veio para ficar. 

 

Quem tem uma amiga, tem tudo

Mas não posso escrever esse texto sem falar sobre um dos principais temas da produção: a força da amizade feminina. Nunca me canso de admirar a crescente que ele tem tido em diversas séries e filmes e aqui se torna ainda mais relevante. Nikki, interpretada pela engraçadíssima Jenny Slate, é a melhor amiga desajeitada de Molly, que vê sua vida virando de cabeça para baixo quando percebe que será ela o porto-seguro da amiga nesta jornada tão difícil.

 

O ex-marido de Molly avisa que Nikki é muito infantil e a própria não confia em si mesma quando o assunto são contas do hospital e grandes responsabilidades, mas seu arco é uma das coisas mais bonitas dessa produção e não pode passar batido. Ela é a antítese da “melhor amiga da personagem principal” que não tem vida, não tem fraquezas e está lá só para ser o alivio cômico da galera. 

 

Não, aqui vemos uma mulher divertida, espontânea mas que perde muito para ser o apoio de Molly (vou evitar os spoilers). E não pude deixar de sentir o tempo inteiro uma dor tremenda por essa mulher que sabia que, apesar de todo seu esforço,  sua melhor amiga a deixaria: era só uma questão de tempo.

 

E é essa amizade feminina que segura a trama e dá forças para Molly continuar. Assistindo, pensei em todas as amigas pelas quais eu não pensaria duas vezes em passar uma vida inteira ao lado numa cama de hospital, e todas as dinâmicas paralelas que já vi acontecer quando acolhi, mas também fui muito acolhida por mulheres importantes na minha vida. Mesmo com um ex-marido, um interesse amoroso e diversos homens em volta de Molly, a verdade é que a série mostra que nós mulheres aguentamos e aguentaremos muito mais por quem amamos, e não tem nada que tire esse protagonismo feminino de nossas vidas (inclusive pra amiga abaixo que recomendei essa série) 

 

A brilhante Jenny Slate que já teve papéis centrais em comédias como "Parks & Recreation" e “Volta para Mim” aqui mostra que consegue muito bem carregar esse drama extremamente impactante com o tom certo, sem parecer que suas falas ácidas e irônicas se perdem dentro da história. 

 

 

A Vida e a Morte 

Nem preciso dizer que Michelle Williams também está impecável em seu papel como Molly, né? Confesso que não é a primeira vez que a vejo assim, já que lá atrás em “Dawson's Creek” ela também exerceu o papel de uma jovem com câncer, então talvez esse tenha sido seu primeiro treino para interpretar hoje essa potência que é a personagem principal. 


Quando pensamos em câncer terminal, logo nos vêm à cabeça a imagem de uma pessoa careca, triste, que já não têm mais esperança - e não vou mentir, algumas cenas são exatamente assim -, mas Molly leva tudo com a determinação e a leveza de uma sobrevida, onde ela levanta o dedo do meio para doença e a usa como caminho para experimentar tudo aquilo que não experimentou antes. A personagem também carrega um trauma imenso de infância que a impede de muitas das coisas que gostaria de fazer. E muitas vezes, assim como nós, ela também enxerga sua versão de 7 anos a encarando toda vez que dá um passo à frente ou para trás. E essa alegoria é de arrepiar todos os pelos do corpo, viu?

 

Storytelling de morrer (tudumts) 

Agora, por último mas não menos importante, preciso urgentemente bater muitas palmas para o roteiro desta série. Composto majoritariamente por mulheres e apenas um homem (!!), sinto que posso colocar o roteiro e direção desta produção na mesma caixinha que “Fleabag” e “Succession”. Não houve nenhum episódio no qual eu não tenha dito em voz alta para minha TV: “meu deus que fala incrível”. São diálogos verossímeis muito similares aos que tenho com minhas amigas, com minha família e até mesmo com médicos que já frequentei e acredito que essa verossimilhança é o que faz diferença na hora de traduzir a história para as telas. 

 

Por fim, nem preciso dizer o quanto estou encantada com essa minissérie, né? Então exijo que: no fim desse texto, você levante, vá até a sala e dê play em “Morrendo por Sexo” - e ai de você se me desobedecer.

Comentários 2

B
Bia Matera8 de abril de 2025
Adorando esses seus textos falando sobre a sexualidade das mulheres! Especialmente esse que combina outro ponto forte seu: a vida dos 30+
M
Mari Stocco7 de abril de 2025
Ok, ok. Me convenceu a assistir. Vou tentar começar essa semana e venho aqui com mais insights

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