Será que "O Estudio" vai finalmente ser a série que agrada todo cinéfilo?

Críticas Gerais

 

No último final de semana, decidi dar play na mais nova aposta da Apple TV+, uma série que vinha sendo anunciada como a grande revolução do gênero de drama e comédia. Me disseram que era "A SÉRIE DO ANO" – sim, mesmo depois daquele incrível episódio de "Ruptura" que deu o que falar. Com a expectativa nas alturas, sentei no sofá e me entreguei aos dois primeiros episódios de "O Estúdio", uma série protagonizada por Seth Rogen, Ike Barinholtz e Kathryn Hahn. 

 

A premissa já era interessante o suficiente para chamar minha atenção: a história gira em torno de um vice-presidente de uma produtora cinematográfica que precisa equilibrar seu sonho de fazer filmes artísticos e poéticos com a realidade dura de manter o estúdio lucrativo em uma indústria que está cada vez mais voltada para franquias, sequências e blockbusters (sim, Marvel, estamos falando de você).

 

Aos desavisados que nunca ouviram falar nesta série,  posso avisar que "O Estúdio" tem absolutamente tudo para agradar qualquer cinéfilo que já tenha feito algumas (ou todas) as seguintes coisas:

 

  • Criado um perfil no Letterboxd 
  • Desejado (ou realmente comprado) uma sacolinha do Mubi para ostentar o amor pelo cinema cult.
  • Sabe de cor e salteado o significado de termos como "plano-sequência" e "jogo de luz".
  • Tem Seth Rogen como uma espécie de figura paterna, não importa o contexto.

 

Assim, eu mesma me enquadro nesse conceito, mas como uma mulher no meio do entretenimento, não posso deixar de apontar algumas coisas que acabam se tornando incômodas.O conceito da série é promissor, principalmente para quem ama histórias que envolvem os bastidores de Hollywood. Afinal, a própria indústria cinematográfica sempre adorou se analisar e se criticar. Filmes como "Cantando na Chuva", "O Artista", "O Jogador" e, mais recentemente, "Babylon" e "Era uma Vez em... Hollywood" são apenas alguns exemplos de como essa temática sempre rende bons roteiros e personagens memoráveis.

 

A história de "O Estúdio" se desenrola em camadas, e à medida que os episódios avançam, fica claro que não se trata apenas de uma análise superficial da indústria cinematográfica, mas também de uma crítica ácida ao atual estado do entretenimento. O protagonista Matt, vivido por Seth Rogen, se encontra constantemente em conflito entre a necessidade de gerar lucro e sua paixão por contar histórias autênticas.

 

Isso levanta questões intrigantes sobre a pressão que diretores e roteiristas enfrentam para criar conteúdo que seja, ao mesmo tempo, comercialmente viável e artisticamente relevante. A série se aprofunda na tensão entre a arte e o capitalismo, explorando como a indústria, muitas vezes, sacrifica a inovação em prol de franquias seguras e remakes de sucesso garantido - será que precisamos mesmo de uma prequel do Live Action de Rei Leão? 

 

Outro ponto que merece destaque é a construção dos personagens secundários. Kathryn Hahn brilha como uma produtora cínica, mas com um coração que ainda acredita no cinema. Seu relacionamento com o personagem de Rogen é um dos pontos altos da narrativa, com trocas de diálogos afiadas e momentos genuínos de cumplicidade. Ike Barinholtz, por sua vez, adiciona uma camada de humor sarcástico, representando o lado mais louco e pragmático da indústria.

 

Os episódios são recheados de metalinguagem, com diálogos que fazem referências diretas a situações reais de Hollywood. Em um momento hilário, por exemplo, um personagem menciona como "ninguém mais quer ver filmes originais" e ironiza a avalanche de adaptações de quadrinhos e remakes que dominam o mercado.

 

Mas a série também não se exime de explorar temas mais sérios, como a falta de diversidade na indústria, os desafios que roteiristas independentes enfrentam e o impacto das novas tecnologias na produção cinematográfica. Essa abordagem multifacetada é um dos grandes trunfos de "O Estúdio", tornando-a mais do que apenas uma série sobre Hollywood, mas uma reflexão sobre o futuro do entretenimento.

 

Seus episódios contam com algumas participações especiais de peso, como Martin Scorsese, Greta Lee e Charlize Theron interpretando a si mesmos. Para quem é fã de cinema, isso é um prato cheio e funciona como uma espécie de presente. Mas também me pergunto se essa estratégia não está apenas reforçando um certo "fan service" que, ironicamente, ninguém está chamando de "fan service".

 

É possível que "O Estúdio" acabe sendo lembrada como uma série de nicho, voltada para os entusiastas do cinema. Mas, ao mesmo tempo, ela tem potencial para crescer e se tornar um fenômeno maior, dependendo de como sua narrativa se desenvolverá nos próximos episódios.

 

Reddit, é você?

Um dos aspectos mais peculiares de "O Estúdio" é a maneira como ele dialoga diretamente com o espectador apaixonado por cinema, tornando-se quase um espelho para seus próprios gostos e críticas. A série não apenas presta homenagem ao cinema clássico e contemporâneo, mas também faz uma reflexão sobre o comportamento dos próprios cinéfilos, especialmente na era digital. Quantas vezes já não vimos discussões acaloradas sobre o valor de um filme no Twitter, no Letterboxd ou em fóruns especializados? "O Estúdio" parece estar ciente dessa nova dinâmica da cinefilia e, em diversos momentos, satiriza a forma como consumimos e debatemos filmes atualmente. Desde a exaltação de diretores cult até a maneira como algumas produções são rejeitadas por serem "populares demais", a série caminha nesse terreno com um humor afiado. 

 

Ao mesmo tempo, ela também nos faz questionar: será que, em meio a tantas análises e dissecações, ainda conseguimos simplesmente aproveitar um filme pelo que ele é? Esse é um dos questionamentos mais profundos que "O Estúdio" levanta e que, talvez, faça com que a série ressoe para além do público cinéfilo tradicional. Afinal, o amor pelo cinema deve ser uma experiência genuína e prazerosa, e não apenas um exercício de classificação e validação intelectual.

 

Por enquanto, o que posso afirmar com segurança é que "O Estúdio"  ainda precisa mostrar se é capaz de ir além dessa bolha de cinéfilos que já estão imersos nesse universo. A Apple TV+ tem acertado cada vez mais em suas produções e, se a série conseguir equilibrar bem sua crítica à indústria cinematográfica com uma narrativa envolvente, pode realmente se tornar um marco. Resta esperar pelos próximos episódios e ver se a série vai se aprofundar e conquistar um público maior ou se permanecerá como um conteúdo feito exclusivamente para quem já respira cinema 24 horas por dia.

 

Não me entenda mal, viu. Eu mesma adorei a série e continuarei assistindo. Mas não posso deixar de pensar que, assim como grandes outros clássicos do tipo "Pulp Fiction" e "Interstellar", ainda vou ouvir de muito macho palestrinha que "O Estudio" é a melhor série do ano.  

Comentários 5

B
Bia Matera4 de abril de 2025
meus amigos (todos trabalhando em comunicação, produção e afins) definiram a série como o "The Bear da nossa área"
R
Rafael Sylos4 de abril de 2025
Feliz ou infelizmente sou o público-alvo dessa série, hahaha</br>Além disso, me dê qualquer série ou filme com o Seth Rogen e eu serei uma pessoa feliz!
C
Carlos Norcia4 de abril de 2025
O piloto da série não me pegou tanto, mas vou continuar assistindo pra ver se daqui a pouco vou ficar viciado!
H
Heitor Leal Machado4 de abril de 2025
Comecei a ver ontem e estou gostando! Mas esperava muito mais.
M
Maratonando4 de abril de 2025
Animada para assistir!! Vou tentar começar logo menos

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