"Mulan" - original vs. live-action: questões, perguntas e reclamações
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Antes de mais nada, darei nome a todos os bois e admitirei com orgulho (e muita nostalgia) que cresci assistindo as animações originais da Disney, apesar de estar longe de ser algum tipo de "purista", que é contra esse movimento dos remakes em live-action, de maneira alguma; e "Mulan" (1998) é, desde que me entendo por gente, meu preferido. E não, eu não tinha a menor ideia de que com o passar dos anos, me transformaria na mente feminista claramente tendenciosa cujas opiniões inevitavelmente permearão todo o texto a seguir (prossiga se quiser, o resto do site é serventia da casa).
Veja bem, essa introdução ~bastante séria~ não é de maneira alguma uma tentativa de negar que esta mesma que vos fala teria sido a primeira na fila do cinema a passar por cima de criancinhas sem vergonha, dó, ou piedade, e ainda teria conseguido o melhor assento na sala inteira pra assistir a nova versão de olhinhos brilhando: poxa vida, minha "princesa" mais preferida de todas, gente! (Eu sei, eu sei. Passe o tempo que passar, nem eu mesma consigo evitar chamar ~aquele grupinho~, que sabemos bem qual é, de "princesas").
Contudo, tendo assistido ao remake agora, fico me perguntando… Afinal, qual é a mensagem que o filme acabou passando em termos da onda comercial feminista avassaladora (paciente zero: “Frozen” - 2013, sem dúvidas) que andamos vendo por aí?
Bem, vamos aos fatos, certo? Fora o ululantemente óbvio de que, independentemente da sua opinião sobre o remake, todos nós sentimos falta do Mushu, mérito no qual não vou nem me aprofundar, o filme em si, como uma obra independente, é bem ok… Se eu forçar meu cérebro a produzir uma opinião suficientemente "objetiva".
A produção é de um nível absurdamente alto, e é sim visualmente maravilhoso de se contemplar: só o design de produção, a arte, o figurino e maquiagem são quase que um desfile à parte. Também deveríamos chamar atenção para o fato de que a produção parece ter realmente se esforçado para manter todos os seus aspectos, pelo menos certamente quanto ao elenco (admito, não posso conter minha imensa admiração pel'A Gong Li), dentro de um "reino" inteiramente asiático.
Ora, pois, se não é para a minha imensa desonra (pra tu, pra tua vaca!) que não posso deixar de cutucar que esta mesma lendária Gong Li que foi o maior e mais confuso "É-U-QUÊ?" desse intervalo de quase duas décadas entre os dois filmes. {Bom, a personagem, pelo menos; a atriz segue maravilhosa, rs} E assim permanecerá.

Por favor, vejam se estão todos comigo, ok?
O conflito (indireto, porém inerente) e quase que a razão de ser do "Mulan" original é que a Mulan ocupa um lugar fixo na sociedade que já é um pacote completo com normas e funções que são esperadas de uma filha mulher desde sempre; no entanto, a questão toda do filme é que durante o enredo, além de a guerreira nunca perder sua graça e humildade “enquanto mulher” (seu caráter, na verdade) ao assumir voluntariamente a identidade de um homem, Mulan também desafia desde a própria família ao sistema social de toda a China. Ao final, ela assim conquista a vitória; não para si própria, mas para sua nação, independentemente de seu gênero.
Essa parada de gênero, inclusive, é algo tem bastante destaque no original, quando os companheiros dela do exército basicamente se montam todos e viram drag queens por alguns minutos pra invadir o palácio… O que é simplesmente- sensacional?
Ah, e aliás, isso tudo acontece pós-Mulan ter sido deixada pra trás na neve pela tropa pós-sua identidade verdadeira ter sido descoberta. Mesmo assim, ela persiste até o final, e nesse bendito final, não é ela quem mostra o que é honra de verdade, recebendo uma reverência do próprio Imperador da China?
Além disso tudo, querides, Mulan termina o filme de crush amarradíssimo, ta? Dá sim pra ter tudo!... O que, é claro, não é possível no remake, pois "príncipes" atrapalham a narrativa moderna do que se entende facilmente como "mulher forte/ independente".

Até aqui, estamos comigo?
Pois muito que bem, finalmente chegamos então à aparição súbita dessa feiticeira misteriosa, cuja relação com a Mulan na verdade é não só extremamente esperta, como também fácil de entender, considerando o que estamos pregando (e ainda bem) nos dias de hoje: empatia. Nós entendemos isso de cara e nem questionamos, sabe por quê? Porque cada uma delas é um lado da mesma moeda, as duas estão presas no mesmo sistema que as aprisiona em papéis extremamente limitados; só que a tal feiticeira ficou revolts (justa causa) e resolveu lutar contra ele de outra forma, junto com os vilões.
Então tá. Quesito empatia? Check, fácil. Sororidade feminista oportunista pra caramba pra poder vender? Check. Dá pra acreditar realmente nisso quando você percebe que é isso que tá rolando? Hmmmm, não? Dá pra des-ver? Infelizmente, também não.
Veja bem, carx leitorx, por gentileza: a mera existência dessa personagem, imagino eu, vem com a intenção de sublinhar ou, de uma forma pra lá de desajeitada, reforçar uma coisa que já estava lá, no centro do original. No "Mulan" de 1998, a heroína treina até não poder mais e acaba ganhando o desafio militar em uma sequência cuja trilha sonora (é minha preferida, aliás) em inglês se chama "I'll Make a Man Out of You" - traduzida ao pé da letra, seria "vou fazer de vocês homens": será que eu realmente preciso dizer mais alguma coisa, pelamor? (É aquela que em português é tão legal quanto, "Não Vou Desistir de Nenhum").
A questão é que essa jogada comercial dilui completamente a figura da Mulan- a guerreira e mexe totalmente com o equilíbrio dos elementos e temáticas da história que já existia lá. A história já tinha "moral", pra começo de conversa, e era passada de maneiras tão mais sutis, efetivas e belas (isso sem falar nos diálogos, que repetimos até hoje), que para provar isso, deixo essa imagem apenas…

…Que seria o fim do texto se eu não necessitasse terminá-lo com a seguinte pergunta: Disney, minha filha, pra quê?






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